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01 nov

Cristianismo e Cultura

Categoria: Blog 2 comentários

Cristianismo e Cultura
por Daniel Chacon, professor do CTMDT desde 2012
Leciona Teologia do Novo Testamento

O mundo contemporâneo tem sido impactado por um fenômeno social extremamente intrigante: o contato com os universos multiculturais. Especialmente com o avanço tecnológico as barreiras culturais que nos distanciavam estão sendo rompidas, e a cada dia a presença do diferente tem estado diante de nós. A televisão por meio de filmes, seriados, novelas e mesmo o acesso virtual da internet tem possibilitado o contato com realidades culturais das mais diversas. Estamos a cada dia nos familiarizando com essa multiplicidade de expressões religiosas, artísticas, de festas, de práticas alimentares, e moda. È interessante percebermos que mesmo em nosso próprio país existe uma variedade ilimitada de vivencia cultural: sotaques, comidas típicas, músicas regionais e até mesmo os padrões estéticos variam em cada região do Brasil.

Frente a esse intrigante fenômeno social surgem-nos as mais variadas questões: O que significa ser cristão nessa dada condição histórica? Como pensar a fé nesse contexto plural? Como transmitir a mensagem cristã que se intitula absoluta frente a este multiculturalismo? Como, por tanto, solucionar esta evidente tensão entre cristianismo e cultura?

Essas e outras questões demandariam uma vida inteira de labor e reflexão teológica e filosófica. Entretanto, gostaria de apresentar, por meio deste ensaio, algumas perspectivas teológicas que se propuseram a resolver esta intrigante tensão que envolve cristianismo e cultura.

Desvalorização Fundamentalista da Cultura

Para uma melhor compreensão da nossa discussão precisamos definir o que estamos chamando de cultura. De forma bem simplória cultura é: um fenômeno humano de produção de conhecimento, de expressão artística; é a forma como um determinado povo organiza sua vida, como se alimenta, como se veste, como fala e etc.

É provável que a proposta mais comum para resolução da tensão entre fé cristã e cultura seja a depreciação fundamentalista ou mesmo a “demonização” das culturas. Frases como “música do mundo é do diabo”, “Rock in Roll não é coisa de homem de Deus”, “futebol é coisa do capeta”, “evangélico não pode fazer artes marciais”, dentre outras tantas, são expressões claras desta postura “teológica”.

Essa proposta tem seus antecedentes históricos em um movimento norte-americano chamado fundamentalismo cristão. Entre os percussores deste movimento podemos citar: o avivamento de Moody (1837 – 1899), a Universidade de Princeton (1812 – 1921); e teólogos como Alexander Archibald; Charles Hodge; A. A. Hodge; e Bejamim Worfield.

A primeira fase deste movimento foi sem dúvida de grande contribuição para a reflexão teológica e para a vivência cristã. Nesta fase foi publicada uma série chamada “The Fundamentals” que propunha cinco fundamentos centrais da fé cristã: 1) os milagres; 2) o nascimento virginal; 3) a morte expiatória; 4) a ressurreição de Cristo; e 5) a autoridade das Escrituras.

Entretanto, o principal líder deste movimento W. B. Riley declarou, em 1919, o dispensacionalismo (visão deturpada da escatologia bíblica) como um dos fundamentos da fé cristã. A partir desse instante, é inaugurada a segunda fase do movimento, que se caracteriza por: 1) uma leitura extremamente literalista da Bíblia; 2) uma visão distorcida da escatologia; 3) uma defesa do criacionismo FIAT (instantâneo); 4) uma postura separatista; 5) uma crítica ao “Evangelho Social” 5) um anti-comunismo – conservando o “esplendido” espírito capitalista norte-americano e, por fim, 6) uma rejeição da cultura em geral (arte, teatro, etc.).
È evidente o fato de que o cristianismo evangélico no Brasil herdou diversos traços deste movimento. Entretanto, no momento, interessa-nos apenas o fato, de que, influenciado pelo fundamentalismo a proposta evangélica mais comum para resolver a tensão entre fé cristã e cultura se resume em uma simples rejeição indiscriminada das manifestações culturais.

É extremamente comum nos deparamos com afirmações que depreciam as iniciativas musicais, teatrais e cinematográficas que não assumem o pretenso título de cristãs. A verdade é que quando as manifestações culturais não expressam o mais elevado “ideal cristão”, ou melhor, o mais excelso “espírito gospel” são taxadas de práticas pecaminosas e diabólicas.

Realizaremos a seguir uma análise levantando algumas objeções a esta postura teológica. Entretanto gostaria de adiantar, que, infelizmente, existe uma relação direta entre esta proposta fundamentalista e a ética de cunho separatista, que transformou muitas igrejas evangélicas em verdadeiros guetos da sociedade.

 Gostaria de apresentar algumas objeções à proposta fundamentalista de depreciação da cultura que descrevi anteriormente.

1° Essa proposição não põe fim à tensão entre fé e cultura. O simples fato de negarmos a cultura, nos distanciando da mesma, não resolve o fato de que ela estará sempre presente, bem ai na nossa frente.
2° Semelhante ao cristianismo monástico (vivencia cristã em mosteiros isolados da sociedade) a proposta fundamentalista baseia-se apenas no ideal separatista como única maneira de viver a fé cristã. Além de ser reducionista este ideal consiste em uma simples alienação e desvalorização da vida.
3° Acredito que um dos principais problemas desta proposta consiste em negligenciar a mensagem da encarnação de Cristo. Ao se encarnar Cristo assumiu a vida de sua época, os costumes sociais, as práticas alimentares e vestuais. De igual forma, nós cristãos somos chamados para encarnar nossa fé na vida, levando dessa forma a mensagem libertadora do evangelho de Cristo.
4° Outro grande problema gerado por esta proposta é que ao enfatizar a cultura como algo maligno, tal postura impede a possibilidade de interpretar a cultura como instrumento da revelação de Deus. O próprio Jesus utilizou-se da linguagem humana e das mais variadas expressões culturais de sua época para comunicar o evangelho.
5° A cultura é uma construção humana. Cultura é sobrevivência. Ela nos liga ao nosso passado histórico, nos mantém firme no presente e nos aponta o futuro. As manifestações culturais, especialmente as artísticas, são uma forma de expressar amor, ódio, tristeza, alegria, paz, revolta e tantos outros sentimentos que estão ligados a nossa natureza humana. As escrituras nunca proibiram a expressão do coração do homem. Ao contrário a Bíblia é um livro que emerge do ser, que dotado de suas mais confusas emoções humanas foi impactado pela revelação de Deus.

 

2 Comentários

  1. Cássio disse:

    Que Deus continue abençoando vcs! Aleluia!

  2. Crístoffer disse:

    Muito bom este artigo; esclarecedor.

    Gostaria de saber onde posso ler um pouco mais sobre o dispensacionalismo de Riley no que toca aos pontos supracitados, sobretudo da visão separatista.

    Cordialmente,

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