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Depressão, esquizofrenia, TOC, transtorno de personalidade… e agora?

Psicóloga cristã fala sobre saúde mental

Foto: pixabay.com

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O Lagoinha.com entrevistou a psicóloga cristã Cynthia Miranda, que é formada há 18 anos, se especializou em psicanálise, trabalhou quase oito anos no Hospital das Clínicas, no Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP, especificamente no ambulatório de transtorno de personalidade. Morou em São Paulo durante muitos anos, mas voltou para Belo Horizonte há nove, e há quase seis anos serve na Estância Paraíso, da Lagoinha, onde pôde “experimentar o que é unir corpo, alma e espírito, usar a ferramenta que Deus tinha me dado, que é a psicologia, para poder aliar ao tratamento, porque hoje tenho o entendimento que a Palavra de Deus é muito clara quando diz que a gente tem que apresentar corpo, alma e espírito irrepreensíveis diante do Senhor. Se a gente não cuidar de todas as áreas, a gente deixa uma brecha. Então, não é só orar, como também não é só tomar remédio, como também não é só fazer terapia. Mas tem que ser os três, especialmente nessas patologias da saúde mental”, explica Cynthia.

Além de atuar na Estância Paraíso, Cynthia fundou o Espaço Viver Bem, na Pampulha, em Belo Horizonte (MG). “É um sonho que Deus trouxe pra nós”, diz a psicóloga. “A gente trabalha recebendo essas pessoas e montando um projeto terapêutico para elas. Então, não é só internação, a pessoa aprende ali dentro a construir o que ela fará da vida dela depois, porque, na maioria das internações, você só interna. Por ter essa experiência de muitos anos, a gente sabe que precisa ser trabalhado isso, tem que ter um foco”.

Infelizmente, algumas pessoas ainda têm o preconceito de cristãos irem ao psicólogo ou ao psiquiatra, talvez por acharem que essas especialidades sejam apenas para quem tem alguma psicose grave. E é para desmitificar isso que a psicóloga traz conceitos e informações relevantes sobre saúde mental. “A maior resistência do cristão está na mente”, afirma Cynthia. “A loucura é uma doença da psicose popularmente chamada assim, cujo nome é esquizofrenia, e precisa de um psiquiatra. Mas as outras patologias emocionais também precisam: depressão, síndrome do pânico, que são coisas hoje das quais a igreja está lotada, especialmente a depressão. Neste mundo em que vivemos hoje, sob pressão de mídia, pressão financeira, uma perda, um luto, um desemprego, uma doença, tudo pode desencadear uma depressão, todos nós somos vulneráveis a ela, ninguém é imune, não existe um antídoto. Claro, a fé é fundamental, mas hoje vemos muitos líderes que, até por terem uma sobrecarga, por acolherem e lidarem com muitos problemas, ficam com o emocional abalado e, muitas vezes, têm dificuldade de procurar ajuda, ou para não se exporem, ou por acharem que não precisam, e a depressão vai tomando conta”.

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Sobre a depressão

Segundo Cynthia, “existem níveis de depressão, tem uma mais leve, outra depressão profunda, que leva uma pessoa, inclusive, ao suicídio. Então, é importante a Igreja acordar para isso. A oração e o jejum são importantes, mas o remédio e a terapia são ferramentas de Deus. Uma orientação que a gente dá muito é que o cristão, preferencialmente, procure um terapeuta e um médico cristão, porque nós temos algo que nos difere lá de fora, que é o nosso princípio. A gente trabalha por princípio. Nenhuma teoria que eu tenha aprendido vai se sobrepor à Palavra de Deus na minha vida. A direção sempre é a direção de Deus. Se chega um casal, por exemplo, que está pensando em separação, a primeira ideia é trabalhar na restauração e não na separação. Se ele for para um terapeuta secular, ele já vai aceitar aquilo como decisão e vai trabalhar a separação. Então, os princípios bíblicos – a gente tem muitas experiências – fazem toda a diferença na questão do tratamento. Então, é importante buscar uma ajuda especializada, médica, psicológica. E também não adianta só o remédio, como não adianta também só a terapia, tem que buscar os dois e, principalmente, buscar a Deus, em primeiro lugar”, explica a psicóloga.

Como identificar os primeiros sinais da depressão?

• “Desmotivação, falta de ânimo, falta de vontade, apatia, falta de alegria. No senso comum, as pessoas pensam assim: aquele que está deprimido está deitado, acamado, não levanta pra nada. Esse é o deprimido profundo, grave, que pensa em morte o dia inteiro. Existem pessoas que estão trabalhando, que estão junto com a gente, que estão passando por um momento de depressão, mas é um momento, não é a doença depressão, é um estado depressivo, que precisa de cuidado, para que isso não cronifique e não chegue lá”;

• “A pessoa começa a abrir mão das coisas, um certo isolamento social, uma tristeza que bate e ela não sabe explicar muito bem porque está sentindo aquilo”;

• “Tem gente que acha que deprimido dorme demais. Esse é um dos critérios. Pode ser que a pessoa tenha um excesso de sono, até para fugir do que está vivenciando, mas a depressão também causa insônia. Então, tem gente que pensa: “Eu estou com insônia, então, não estou deprimido”. Pode estar deprimido, sim. O nível de angústia está tão grande, que a pessoa não consegue desarmar, não consegue desacelerar e dormir”;

• “Uma alteração no apetite também pode ser um sinal”;

• “Tem gente que acha que não, mas crianças também têm depressão. Essa patologia atinge qualquer um, desde um pequenininho até um idoso, porque ela está no campo das emoções, e a gente não controla muito bem essas coisas. Por isso é importante o processo terapêutico, para você aprender a se conhecer e até sinalizar mais rápido, e aí vem o tratamento”.

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Qual deve ser a atitude de uma pessoa ao perceber sinais de depressão em outra?

“Eu sempre oriento que chame essa pessoa em particular e procure saber. Sinalize para ela: ‘Tenho percebido em você uma mudança de comportamento, estou te achando mais triste, mais abatido. Você está distante, aéreo’.

Dificuldade de concentração é outro sintoma da depressão. Às vezes, você começa a ler e não sabe o que leu; vê um filme, mas está disperso, isso também é uma outra característica. Chame essa pessoa e pergunte o que está acontecendo. De repente naquela conversa ele vai te dar um espaço para que você sugira a ele um tratamento, um terapeuta ou psicólogo cristão, um médico. A gente tem bons profissionais cristãos, tanto médicos psiquiatras como psicólogos. Então, graças a Deus, o Senhor tem levantado pessoas nessa área, porque a gente precisa, a igreja precisa.

Então, eu sugiro sempre chamar. Não deixe passar batido, procure saber, porque a gente tem uma tendência a, principalmente, falar que a pessoa está orando pouco, que está acontecendo isso porque a pessoa não está jejuando. Às vezes, a pessoa está desesperada, está fazendo de tudo, mas não está passando. Não é falta de fé dela, ela não está conseguindo lidar com as emoções dela. Muitas pessoas saem feridas da igreja exatamente por isso, porque foram acusadas de falta de fé. O pastor achou que era frescura, e, às vezes, a pessoa estava em um nível de adoecimento que precisava até de uma internação. Então, a gente precisa ter esse cuidado e a igreja precisa acordar, os líderes precisam acordar. Até porque tem muitos líderes que estão adoecendo e que, muitas vezes, têm dificuldade de procurar ajuda por constrangimento.

Às vezes, a pessoa está morrendo espiritualmente. E, quando estamos morrendo espiritualmente, não damos conta de dar nada para os outros. Então, esse cuidado a gente tem que ter, essa humildade a gente tem que ter de que não está dando conta sozinho. A gente precisa do outro, a gente precisa de ajuda. E eu vejo que Deus trouxe a medicina, a psicologia como ferramentas. A gente tem que poder ter esse discernimento e falar ‘eu estou precisando'”.

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Libertação x Saúde mental

“Hoje eu vejo muitos trabalhos de libertação em que o líder fala que aquela pessoa que já passou tantas vezes por aquele lugar não quer se libertar. Não é tão simples. A pessoa tem um transtorno, não é que ela não queira. Ela tem um adoecimento da personalidade. Ou, então, vai fazer uma libertação em uma pessoa que tem uma psicose, que é esquizofrênica. A pessoa surta de ter que sair de lá para ser internada. Por isso digo que a igreja precisa ter conhecimento em saúde mental, porque a mente é muito vulnerável.

Se eu estou fragilizada e vou buscar uma ajuda, seja de que ordem for – médica, pastoral, psicológica -, se eu vejo naquela pessoa uma referência, aquilo que ela falou para mim vai virar uma verdade. Se eu estou fraca, em um momento de muita vulnerabilidade, e, de repente, uma pessoa fala pra mim que eu não tenho fé, vou sair de lá pior do que eu entrei. Em vez de sair cuidada, eu vou sair julgada e condenada. Então, esse olhar pra saúde mental a igreja precisava ter, não se especializar, mas entender que existem coisas para as quais, às vezes, a gente tem que ter um olhar diferente. Não é todo mundo igual, não é uma forminha.

Todas as patologias dessa ordem – como transtorno de personalidade, psicose – estouram na adolescência, no fim desse período para o início da fase adulta”.

Como tratar a esquizofrenia?

Segundo a psicóloga, existem cristãos com quadro de esquizofrenia. “Eles associam a Bíblia, e a conhecem muito bem, só que fazem uma bagunça na cabeça deles. O esquizofrênico não pode ficar sem medicação, porque, como tem a questão do delírio, do mesmo jeito que vem uma voz boa, vem uma voz ruim. Por isso a igreja precisa acordar pra essa questão da doença.

A esquizofrenia é algo muito complexo, a mente da pessoa rompe com a realidade, tem delírio auditivo, visual e até olfativo”.

A psicóloga explica que algumas pessoas com quadro de esquizofrenia têm delírios, como presença de alguém que não está no lugar, cheiro de alguma pessoa, de alguma coisa, ou vozes e sons que não existem.

“Na mente dele, aquilo é verídico. O tratamento medicamentoso e, em alguns casos, internação. Outra característica da esquizofrenia é que a pessoa tem um delírio muito grande com a família. Então, ela vê como inimigo o pai, a mãe, então, o risco de cometer um crime é muito grande” explica Cynthia.

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O que é o Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC)?

“Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC) é um outro transtorno, caracterizado por pensamentos obsessivos. A pessoa desenvolve rituais de maneira compulsiva para se livrar de pensamentos. Tem gente que desenvolve várias coisas. Por exemplo, a pessoa tem na mente dela um pensamento obsessivo de que se ela não esfregar o corpo dela nove vezes, alguém vai morrer, vai acontecer algo muito ruim. Então, ela tem que lavar nove vezes. Ou se ela pisar na parte branca do azulejo, acontecerá um acidente. Se ela não fizer aquele ritual, o pensamento obsessivo não sai. Isso pode ser com lavar as mãos, existem vários rituais, cada um é diferenciado.

O TOC tem níveis, tem controle e tratamento. Tem uma outra linha de terapia, mais comportamental, a qual o transtorno tem mais resposta. O TOC pode ser desenvolvido por várias coisas, como, por exemplo, um trauma. Já tive uma paciente que foi abusada e desenvolveu o TOC por limpeza, porque ela associou aquilo com tanto nojo e sujeira, que desenvolveu o transtorno. Cada caso é um caso. Você tem que escutar e tentar mapear onde está o portão, por onde entrou isso, para poder tratar isso. Tem tratamento e ótimas respostas. Quanto mais cedo procurar ajuda, melhor.

É muito comum o TOC em crianças. Eu sempre falo para os pais perfeccionistas tomarem cuidado, porque tem pai e mãe que cobram muito da criança, falando que a letra está feia, por exemplo. Aí a criança fica apagando várias vezes, porque ela tem essa necessidade, acha que nunca está bom. Então, ela desenvolve, às vezes, muito TOC na escrita. Então, a gente tem que tomar muito cuidado.

Uma coisa que é importante frisar é que mania todos nós temos, é algo normal. O que a gente não pode é ter comportamentos compulsivos. A mania não faz você perder tempo, não atrapalha sua vida. Quando você percebe que a ação está desenvolvendo e causando problemas, por exemplo, se estiver demorando mais no banho, aí pode procurar uma ajuda, porque tem algo sendo desenvolvido. A questão do transtorno não tratado é que ele vai cronificando e aumentando. Todas as patologias têm nível, que é o que a gente chama de prognóstico”.

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Quais são outros transtornos mais comuns?

“Outra patologia muito comum é a dependência química, que muita gente acha que não é da área da psiquiatria, mas é. A dependência química é uma doença psiquiátrica e normalmente vem associada a outra comorbidade, a outra doença – depressão, ou transtorno de personalidade, ou transtorno bipolar, que desencadeia a dependência química.

Um transtorno hoje, em função do adoecimento familiar, pais separados, brigas lares com pessoas alcoólatras, é o transtorno de personalidade emocionalmente instável, chamado “Borderline”. Ele acomete muitas mulheres e homens, mas as mulheres normalmente estão nos ambientes psiquiátricos; elas vão para o hospital. O homem acaba indo muito mais para a marginalidade e para a dependência química, por isso que eu falei da comorbidade. Então, é muito comum no nosso meio.

Esse transtorno é uma imaturidade afetiva, emocional. Então, a pessoa cronologicamente, intelectualmente tem 30 anos, e quer fazer tudo de 30 anos, mas emocionalmente ela tem 5. Então, um ‘não’ que você fala, ela fica emburrada, quer se cortar, o limiar de frustração é bem pequeno. Isso tem aparecido muito em adolescentes. O nível de tentativa de suicídio é enorme, ciúme patológico, compulsões sexuais, por compras, uso abusivo de remédios, droga, álcool, tudo isso está muito ligado a esse transtorno.

Então, este hoje tem sido o transtorno que mais tem aparecido. A pessoa tem muita intelectualidade, facilidade para falar vários idiomas, às vezes, tem até mestrado, mas não consegue funcionar. Ela não dá conta de um compromisso mínimo, como chegar no horário. Ela sabe o que tem no dia para fazer, mas não dá conta de entregar. Não por falta de competência intelectual, mas por uma disfuncionalidade da personalidade. São pessoas extremamente egocêntricas, egoístas. O nível de empatia ao sofrimento do outro é zero. Isso também vai delimitando a gravidade.

Como a gente classifica esse transtorno, quando ele está mais grave ou menos grave? Primeiro, o envolvimento em outras comorbidades, por exemplo, álcool, drogas, sexo, remédio. Se não tem isso, o prognóstico já está melhor. Dentro da igreja a gente acaba tendo isso como positivo, porque a igreja consegue conter um pouco isso. O mundo não contém, então, a pessoa chega num estrago total. Segundo, a gente olha o nível de empatia e o nível de dependência. Tem gente que não consegue fazer nada sozinho, precisa o tempo inteiro do outro. Há vários transtornos de personalidade, esse é um deles, que eu vejo que é o mais comum, mas tem muitos outros, como anorexia e bulimia, por exemplo”.

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O uso excessivo de tecnologias pode gerar algum transtorno?

“Hoje, os jogos online, o vício pelo celular, a dificuldade de relacionamento, estão aparecendo cada vez mais, porque as pessoas só querem se falar por WhatsApp, por e-mail. Os adolescentes estão totalmente sem controle, não têm limites de uso, é um uso indiscriminado. Eles estão ficando cada vez mais imediatistas, querem tudo rapidamente, não têm paciência para ouvir nada, não toleram esperar nada. Estão cada vez mais isolados, cada vez mais no mundo virtual, fora a compulsão que se instala. Deixe uma pessoa sem o celular! Hoje, no mundo em que a gente vive, o celular é necessário. Só que você tem que saber adequar. Chegou em casa, é o horário para a família. Vai almoçar? Não ligue o celular. A gente tem que estabelecer esses limites, porque são limites que a gente ultrapassa sem perceber. A gente que é adulto faz isso. Imagine na vulnerabilidade de um adolescente, que não tem o nível de atividade que a gente tem! Eles só estudam. O celular vai roubar a atenção dele.

Outra coisa são os jogos online. É uma coisa que me preocupa muito, porque é extremamente viciante, dá muita descarga de adrenalina neles, ou seja, dá muito prazer, e eles não abrem mão. Então, tem jovens que estão invertendo o dia com a noite. Ficam a noite inteira jogando e, no outro dia, perdem aula, só dormem. Tem um prejuízo enorme, inclusive, na vida intelectual, porque ela para, ela acaba.

A minha orientação neste sentido para os pais é exatamente colocar limite. Tem que ter um tempo para usar isso. Hoje a gente vê muita criancinha já usando o tablet, o telefone. Eles são muito espertos, e sabem disso. É bom colocar um tempo, um despertador, porque também não dá para tirar aquilo, porque, se não, ela fica alienada, ela vai ter mais curiosidade se você não deixar. Mas tem que ter limite.

No transtorno de personalidade, a característica principal é a dificuldade de lidar com limites, por isso que hoje ele tem acontecido muito. Na geração atual, de uns anos pra cá, os pais, por trabalharem muito, passam muito pouco tempo com filhos e não falam ‘não’, porque o sentimento de culpa é tão grande, que eles vão sendo permissivos, e daí fica essa falta de limite”.

Segundo a psicóloga, o adolescente não nasce rebelde, controlador, mas o ambiente propiciou isso. A falta de controle e o uso abusivo de tecnologia podem levar a outras patologias, como ansiedade.

Para outras informações sobre o tema, acesse o site do Espaço Viver Bem (clique aqui), ligue (31) 3493.4674 ou (31) 99512.9899 ou envie um e-mail para viverbemespaco@gmail.com.

:: Dayane Nascimento