Nenhum Comentário

Entrevista Dia do Pastor: Rony Carrijo fala sobre bênçãos e desafios do ofício

Foto: Lagoinha Palmeiras

Foto: Lagoinha Palmeiras

Eles parecem ter sempre uma palavrinha na ponta da língua, seja para consolar, exortar ou orientar. Como um pai que cuida do filho, aqueles que têm o dom de pastoreio zelam muito por suas ovelhas e têm como maior alegria vê-las crescendo no caminho do Senhor. Contudo, não pense que trata-se de um ofício cheio de glamour. Ser pastor é uma bênção concedida pelo Espírito Santo, mas repleta de desafios. Neste Dia do Pastor, conheça um pouquinho mais sobre esse encargo por meio do ponto de vista do pastor Rony Carrijo.

Ele é o pastor titular da Lagoinha Palmeiras, fundada há um ano, na qual cuida de mais de 500 ovelhas. É ainda professor do Seminário Teológico Carisma e responsável pelo culto Pra Lá Das Dez, na sede da Lagoinha.

Como descobriu o seu chamado para o pastoreio?

Descobri o meu chamado pastoral pastoreando. O chamado ministerial, independentemente de qual dom tenha, você descobre fazendo. Deus fala, usa pessoas para confirmar, os frutos aparecem confirmando, e você vai trabalhando e se descobrindo. Quando comecei no ministério para valer, por volta de 2002, foi que tive convicção do meu chamado. Mas, antes disso, eu já trabalhava como líder de célula. E, liderando célula, você pastoreia, e, então, meu chamado ficou evidente.

O que significa ser pastor para você?

Ser pastor é desempenhar também o papel de pai. O pai tem o papel de ensinar, corrigir, de apontar o caminho, de preparar a ovelha para a vida. O pastor tem esse papel também. Ele ensina, aponta o caminho, que é Cristo, orienta, exorta, tira “carrapicho” e tem que dar as direções do próprio coração de Deus, que é o nosso Pai, para as ovelhas. Ser pastor significa, para mim, ser uma inspiração para as pessoas que estão ao redor, ensinar mais com o exemplo do que com as palavras. Significa cumprir um papel extremamente importante na vida da Igreja, das ovelhas. É uma honra para nós, pastores, termos sido chamado por Deus, receber dEle um dom. Por isso, para cumprir esse ofício, não pode ser por dinheiro, por torpe ganância; tem que ser uma honra, um privilégio, porque, mesmo sendo tão imperfeitos, Deus nos confiou uma tarefa tão importante, tão nobre, tão linda.

As pessoas levam muito à risca o que um pastor fala. Como lida com essa responsabilidade?

Tenho consciência de que aquilo que nós falamos pode levar uma pessoa para perto de Deus ou para longe. Esse é um desafio porque a gente é ser humano e, num determinado momento, podemos estar carregados de emoções, ser influenciados e acabar falando de nós mesmos. Então, o pastor tem que ter a consciência de que a opinião dele não vale nada, que o nosso papel não é falar o que achamos, o nosso papel é dizer o que a Bíblia diz.

Quais são os tipos mais comuns de ovelhas e como pastoreá-las?

De maneira geral, as ovelhas são uma representação daquilo que a nossa sociedade é. Vivemos numa sociedade hedonista, relativista, egoísta, extremamente deturpada moralmente e sexualmente, sem critério, sem valores. Então, quando as pessoas vêm para a igreja, elas vêm com essa carga do mundo, e o processo de transformação, de limpeza, de mudança de caráter é um processo longo – e, na verdade, todos nós estamos sendo aperfeiçoados pela graça do Senhor. E nós temos que amar muito as nossas ovelhas, ter muita paciência com elas, procurar olhar sempre com olhar de misericórdia e menos possível com olhar de acusação.

Quais são as maiores dificuldades e desafios do pastoreio?

Tem vários, mas, por exemplo, o pastor não pode errar. Todo mundo na igreja é compreendido quando erra, exceto o pastor. O pastor tem que ter uma vida exemplar e, por isso, pastor não pode ficar nervoso, porque compromete o seu caráter, a sua imagem, porque teve um momento de estresse. Não aceitam também que o pastor tenha dificuldade em seu casamento. É claro que o casamento do pastor tem que ser um exemplo, porém são seres humanos normais que têm dificuldade no casamento.

Outro desafio do pastor é o financeiro. Se eles ganham dinheiro, falam que estão roubando. Se eles passam dificuldade financeira, falam que não são abençoados, que têm um pecado ou problema. Além disso, no Brasil, ser pastor acaba sendo honroso em alguns aspectos e, aí, tem um outro lado perigoso, porque o glamour, o holofote pode te cegar e você pode ser dominado pelo orgulho, pela vaidade, pela soberba. Você deve ser convicto, mas não pode ser orgulhoso, e esse é um desafio que o pastor tem que enfrentar todos os dias.

Nós sofremos também, muito seriamente, no ministério, com os ataques espirituais. Satanás percebe que, se ele derrubar um pastor, ele causa um escândalo e consegue prejudicar uma igreja. Há ainda o desafio de nos mantermos atualizados, modernos, sem deixarmos de ser bíblicos; de não se deixar levar pela necessidade de crescimento da igreja e, por causa disso, pregar mensagens que agradam os homens e não aquilo que Deus quer. Esses são alguns desafios do ministério, mas quem tem convicção do chamado não se assusta, não foge, porque Deus capacita e não nos abandona, Ele está lá conosco.

São muitos desafios… Já pensou em deixar o pastoreio?

Sim, mas não foi um pensamento calculado, refletido, foi baseado na emoção. Às vezes, a gente tem uma ideia do ministério de uma maneira muito romântica e, quando você vai vivê-lo, algumas coisas entristecem. Há algumas coisas frustrantes, mas que, ao mesmo tempo, não nos afastam do propósito. Isso porque o chamado é tão forte dentro de nós que a gente supera tudo isso com alegria. É por isso que é importante ter experiência real com Deus, porque, quando Deus marca o coração da gente, há uma convicção plena de que Ele nos chamou. Assim, nada nos para, absolutamente nada, porque a gente trabalha para o Senhor e, de alguma forma, Ele sempre nos supre. Ele é fiel, bondoso e misericordioso para conosco!

Como as pessoas podem descobrir se têm o dom de pastoreio?

Você descobre o dom trabalhando, porque ministério é trabalho, não é glamour, não é exposição pública, como algumas pessoas hoje confundem. Ministério é servir e trabalhar duro em prol do Reino. O ministério não é nada para nós, nada para sermos exaltados. Ser pastor é trabalhar, servir, e o dom vai se evidenciando no serviço. No dia a dia, as pessoas vão reconhecendo o dom que Deus te deu, e as coisas vão acontecendo naturalmente. Não, necessariamente, significa o uso do microfone e do púlpito, porque pastoreio é cuidado, é abraçar, ouvir, aconselhar, servir, estender as mãos, orar pelas pessoas, é socorrer o aflito, ensinar individualmente e tantas outras coisas. Agora, o púlpito faz parte, o microfone faz parte, mas nem todo bom pastor é um bom pregador, e nem todo bom pregador é um bom pastor.

:: Thais Oliveira