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Helena Tannure fala abertamente sobre dilemas e questões do universo feminino

Foto: Raissa Sossai

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O lugar de encontro foi o espaço de um dos salões mais requisitados de BH. Segundo as próprias palavras da Helena Tannure, não havia lugar melhor para falar de mulher, que não fosse um salão de beleza. E a conversa rendeu, mulher falando de mulher tem assunto a perder de vista.

Palestrante conhecida nacionalmente pela abordagem de temas femininos, Helena se mostrou bem à vontade para falar sobre diversas áreas que tem mexido com a cabeça feminina e mostrou propriedade para esclarecer dúvidas. Ela que já escreveu vários livros, participou durante anos como backing vocal do ministério Diante do Trono, gravou vídeos sobre relacionamento a dois, carrega na sua trajetória a experiência que só se aprende com o decorrer dos anos.

Aproveite que estamos entre mulheres e confira uma entrevista que pode vir a calhar, e muito.

A Bíblia diz que a mulher deve ser submissa. No que consiste exatamente esta submissão?

Se a gente for estudar a etimologia da palavra “submissão”, ela se organiza assim: ‘sub’, que significa ‘debaixo’, e ‘missão’. Qual é a missão do homem dada na Bíblia? Amar a esposa como Cristo amou a Igreja. A mulher tem a capacidade dada por Deus de sustentar algumas situações, de influenciar, ensinar, dar suporte. Entendo a submissão dessa forma.

Duas pessoas não podem dirigir um carro ao mesmo tempo, se não a coisa complica. E Deus instituiu que o homem dirigisse o carro, mas isso não significa que o motorista não precise de um navegador. Então, a mulher está debaixo da autoridade do homem, não para ser abusada por ele. Aliás, quando a autoridade é bem instituída e bem resolvida, ela promove e faz florescer os maiores talentos dos seus liderados. Então, é fácil entender a submissão no prisma divino. Ele colocou a mulher sob a autoridade do homem para ser cuidada, incentivada, para que ela alcance o ápice da sua capacidade. Quando a mulher é amada e protegida, não há nenhuma dificuldade em se submeter.

Foto: Raissa Sossai

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Por que as mulheres têm tanta dificuldade em obedecer?

No trabalho as pessoas não têm dificuldade para obedecer a liderança, por que acontece isso nos relacionamentos? Porque existe orgulho e também pelo resultado de todo o tempo em que ela foi vítima de abuso de autoridade. A mulher foi vítima de um machismo em que lhe foram negadas as próprias potencialidades que Deus lhe deu. Ela é multitarefas, mas os homens silenciaram por muito tempo estas habilidades. Por isso, aconteceu o movimento feminista.

Ele se deu em três ondas. A primeira onda a mulher estava pleiteando o direito de votar, pensar e expressar suas opiniões, o que a propósito é muito legítimo. Isso aconteceu sem muitos problemas, é claro, que houve certa resistência, mas, por fim, elas conquistaram este direito. Em outro momento, durante a Segunda Guerra Mundial, antes da segunda etapa do movimento feminista, a mulher foi convocada para o trabalho porque a mão de obra feminina era necessária. Ela provou que era competente, entretanto, ela continuou cuidando da casa e com salários menores que os homens. Até hoje elas ganham menos que os homens. Mulheres que provaram serem competentes, ainda assim recebiam salários inferiores.

Agora na segunda onda do Movimento Feminista, o grito delas foi mais agressivo. Foi movido pela rebelião. “Queremos ter direito ao divórcio, ao aborto”, essa era a máxima delas. Saíram de casa e chutaram o “pau da barraca”. Qual o final disso tudo? Uma geração de filhos sem mães e pais. Porque os homens e as mulheres estão tão focados em viver a própria carreira que a família ficou em segundo plano. Vemos uma geração de jovens perdidos, de sentimentos mal resolvidos. Vemos na sociedade o reflexo da mulher ter saído de casa.

Trabalhar fora, fazer faculdade, de certa forma atrapalhou um pouco a função que era destinada a mulher de cuidar da casa, dos filhos e do marido?

Atrapalhou porque as prioridades foram invertidas. A prioridade passou ser a carreira e o trabalho e não a família. Todas as vezes que acontece essa inversão, alguma coisa sai do lugar. O plano “a” da mulher é ser suporte dentro de casa. Tem um sociólogo argentino que explanou muito bem sobre esta questão. Ele escreveu um livro que se chama “A Sociedade de filhos órfãos e pais vivos”. É o que estamos vivendo hoje. Os meninos têm mãe e pai, mas não tem presença de nenhuma das figuras. Se tornou uma sociedade utilitarista, ou seja, a mãe sente culpa porque está dedicando a carreira, por isso, enche o filho de coisas, cursos, viagens, mas isso não supre a necessidade que todo ser humano tem de ser amado. Os filhos estão buscando a lacuna que o amor não preencheu em outros relacionamentos em outras alternativas. Todas essas decisões têm se refletido em uma sociedade bastante desajustada.

Foto: Raissa Sossai

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O que você está tentando dizer é que a mulher pode trabalhar, mas a prioridade precisa ser a família?

Sim, ela pode trabalhar, mas deve lembrar que o mais importante é o lar. Um sociólogo diz que o tempo de amamentação que a criança deveria amamentar seria 2 anos, não tanto pela questão da saúde, mas pelo vínculo que se cria com a mãe. Então, quando a mulher coloca o filho no seio, essa atitude supre o filho de afeto. Fiquei triste porque hoje elas têm retornado muito rápido para o trabalho sem trazer para os filhos essa relação. O padrão de beleza, o corpo sempre em ordem se tornaram prioridades. Os filhos acabaram ocupando posições de importância bem distantes de onde deveriam ocupar.

O que seria essa mulher virtuosa que a Bíblia tanto fala?

Acho que ela é um equilíbrio da mulher que tem tentado viver o plano perfeito de Deus sendo ajudadora idônea. A Palavra ajudadora significa aquela que presta socorro, que auxilia, e idônea; apta, capaz e moralmente correta. Portanto, Deus decretou isso sobre a feminilidade, e eu acredito que a plenitude da mulher está em primeiramente cumprir este papel e as outras coisas surgem naturalmente.

Então, se ela é apta, capaz e competente, ela faz muitas coisas. A mulher virtuosa é aquela que encontra o perfeito equilíbrio. Quando lemos em Provérbios 31 a mulher virtuosa sendo descrita, percebemos que ela se preocupa com o próximo, cuida bem da sua própria casa, dá ordens para a sua serva e quando vê uma boa propriedade, adquire. A partir desta descrição, vemos uma mulher multitarefas. O mais interessante que vejo é que no final do capítulo, a Bíblia diz que os filhos e o marido reconhecem o seu valor.

Ás vezes a gente se esforça muito para parecer boa para os outros. Querer ser bonita e jovem para os de fora, ser competente para o patrão e negligenciamos nossa própria casa. A vitória da mulher virtuosa é que quem vive com ela, percebe que ela é uma mulher que desenvolve bem suas potencialidades sem faltar nada, um verdadeiro equilíbrio.

Foto: Raissa Sossai

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A Bíblia diz “Quem a achará?” a respeito da mulher virtuosa, acha que ainda tem sido um obstáculo encontrar mulheres assim na igreja atual?

Acho que é um desafio porque o século nos convida para outro caminho. A mulher que estudou, fez mestrado, dirige o próprio carro, ela tem uma vida bem ativa. Quando ela se torna mãe e resolve abrir mão de tudo por um tempo para cuidar dos filhos, é massacrada pela sociedade. Portanto, a cantiga que o mundo toca é outra: “invista em você”, “seja uma boa profissional”, “suba cada vez mais alto”, “conquiste altos salários”. Quando ela deseja ser somente esposa e mãe, a mulher é tachada de acomodada, louca, então acho que o desafio é muito grande de encontrar este equilíbrio, mas acho que nós temos crescido bastante. Durante as minhas viagens como palestrante, tenho visto que as mulheres estão em crise para decidir entre a carreira e família.

Mas não dá para conciliar carreira e família?

Quando o filho é recém-nascido é um momento delicado, em algumas profissões como profissionais liberais dá para conciliar, mas muitas trabalham em empresas, por isso, não têm essa flexibilidade. Quando este conflito entre o trabalho e família acontece, a mulher tem que pesar e ver o que é prioridade para ela. Acho que sempre tem que pender para o ser humano, para a vida, porque babá nenhuma fará o que só a mãe é capaz de ensinar.

Você é contra a ideia das babás?

Não. Quando elas estão ali para auxiliar tudo bem, mas quando a responsabilidade de criação dos filhos é transferida para as babás sou totalmente contra. Tem muitas mulheres que dão a luz para dar satisfação para a sociedade: “Olha, sou capaz de ter um filho”. Mas depois quem cria o filho é a empregada ou a avó. Acho que atitudes como essas cooperam para uma sociedade desequilibrada.

Foto: Raissa Sossai

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O que a mulher de hoje tem de diferente das de décadas atrás?

Tudo. Hoje é outra mulher. Tem o lado bom e o lado ruim como tudo na vida. O lado ruim é que as mulheres perderam o direito de envelhecer, depois do advento do cinema, e da televisão. Há 50 anos uma mulher com 50 anos era uma senhora, hoje, ela continua jovem. Isso é admirável, mas, ao mesmo tempo, é uma opressão.

As mulheres estão se sujeitando a cirurgias plásticas (não tenho nada contra, desde que ela não queira transformar por fora o que está errado por dentro). Tem coisas que precisam ser tratadas dentro da nossa cabeça, para depois ver se precisa ser mudado algo por fora. Sou a favor de envelhecer bem, saudável, de bem com a própria imagem, mas não acho que devemos cultuar o nosso corpo. Tem muitas mulheres que se rejeitam à medida que vão envelhecendo e, ao se rejeitarem, elas impõem e ensinam isso para a próxima geração.

A beleza que a mídia expõe é algo surreal. Ninguém sai na mídia como acorda pela manhã, é tudo perfeito e bem produzido, então, é massacrante para nós mulheres se quisermos seguir o mesmo nível. E o pior de tudo é que transferimos estes valores para os homens. Ensinamos para eles o que é estria e celulite, colamos o holofote, em tudo que não gostamos e ainda falamos para eles quais as mulheres que achamos bonitas na TV.

Podemos mudar essa história e ensinar aos nossos filhos que a mulher não vale só pela embalagem, uma mulher é um ser que pensa, sente e precisa ser respeitada. Com os valores desta sociedade, ela não é considerada mais uma pessoa, mas um produto, que quando fica velha é descartada. Hoje a mulher vende a imagem do poder pelo corpão, pelo cabelão, mas os anos passam e isso acaba, e aí? A gente vê as anomalias na sociedade por esse padrão de exigência.

Por exemplo, o cinema começou a fomentar estes conceitos. A dona de casa que cuidava do lar e da família e envelheceria naturalmente viu a Marilyn Monroe linda, com vestido branco, loiríssima, uma imagem de sensualidade com o vento batendo por baixo daquele vestido. Aquela imagem sendo cobiçada por todos os homens, então, a mulher simples começou a desejar ser assim: “É isso que eu quero”, “É esse poder que eu quero”. Entretanto, ela se esqueceu que para ter esse poder vem também a questão da mulher ser rebaixada a status de “coisa”. Somos pessoas e merecemos ser tratadas como pessoas que sentem, pensam e têm o direito de envelhecer.

Foto: Raissa Sossai

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Hoje o problema são as mulheres que estão avançando muito ou os homens que têm se tornado omissos?

Avançar não é o problema, o fato é quando ela concorre com este homem e quer ser melhor que ele. Ela menospreza e diminui a figura masculina. E é esta a situação que estamos vivenciando. A mulher se tornou tão poderosa nos anos 70, 80 e 90 que ela diminuiu a imagem do homem. Aquele que estava acostumado a ser o provedor, que cuida e protege, passou a não ter mais esse compromisso. A mulher tem dito: “Eu não preciso de você. Eu mesma me resolvo, pago as minhas contas.” “Posso fazer sexo com você sem que precise casar comigo.” Assim, ficou fácil para o homem, por isso ele se acomodou. Por que estão assim? Porque as próprias mulheres fizeram isto com eles.

Conheço mulheres que se o homem for abrir a porta, elas falam: “Não precisa, eu mesma abro”. Isso é orgulho! O homem fisicamente é mais forte que a mulher. Você assiste as provas das Olimpíadas e entende que o homem nunca compete com a mulher, porque o desempenho do corpo masculino é superior ao dela. Cada um tem as suas peculiaridades. Não tem um melhor do que o outro, são diferentes. Quando pensamos na trindade, vemos que são diferentes e com propósitos diferentes, mas ao mesmo tempo são um, em uma unidade plena, perfeita e absoluta. Acredito que quando Deus criou o homem e a mulher ele estava pensando em quem Eles eram. Três em um. Por isso, a Palavra diz: “Deixará o homem pai e a mãe e se unirá a mulher, e serão uma só carne.” São pessoas diferentes, potenciais diferentes, forças e fraquezas diferentes para se somarem e fazerem uma equipe. Uma equipe não concorre, mas funciona junto! Hoje os dois concorrem, por isso que temos tido mulheres sobrecarregadas e homens acomodados. É tempo de pensar essa situação.

Você como mulher, enfrentou dificuldades durante sua caminhada cristã? Conte um pouco sua história, sua superação.

Quando meus filhos ainda eram pequenos, estava envolvida em uma equipe de criação para crianças. Amo este tipo de trabalho, pois tenho uma alma de artista, adoro criar, gosto de pinturas e artes em geral. Estava muito envolvida liderando uma equipe de criação. Deus me disse para voltar para casa. Ao perceber esta direção, esbravejei: “Isso não é coisa de Deus, deve ser da carne, como vou voltar para casa? A gente precisa desse dinheiro para ajudar nas finanças”. Contudo, Deus insistia comigo esta questão. Por fim, voltei para casa infeliz e frustrada.

Disse a Deus: “Voltei para casa, mas estou infeliz, não quero ficar aqui cuidando da casa e das crianças”. E o Senhor falou comigo claramente: “Estou fazendo você voltar para casa para não perder o melhor da festa, porque essa fase passará. É só uma estação da sua vida, filhos crescem e nenhuma profissão bem-sucedida compensa uma família destruída”. Pedi a Ele para mudar meu coração, renovar minha mente, me desintoxicar dos valores deste século, dos comentários das minhas amigas que me diziam que eu precisava trabalhar.

Desde esse momento, Deus me restaurou e comecei a olhar para meus filhos, para maternidade de outra forma. Passei a ver que quando cuido da minha casa, estou fazendo a obra de Deus. Estou contribuindo para uma sociedade mais justa quando instruo meus filhos com valores que só a família pode ensinar: respeite o próximo, respeite os mais velhos, sejam gentis com as mulheres. Isso é família que ensina. Hoje pago para ficar em casa (risos). Viajo nos finais de semana para palestrar, mas tenho alegria em ficar em casa, e eles são a minha prioridade, até por que o que ensino no púlpito não teria razão de ser, se antes não vivesse dentro da minha própria casa.

:: Érica Fernandes