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Laura Souguellis com simplicidade e poesia

Com voz doce, Laura Souguellis carrega consigo o jeito alternativo e leve de ver a vida. A forma reflexiva e poética com a qual se expressa não consegue revelar a pouca idade da paulistana que está prestes a completar 25 anos. Laura escreve letras de música desde a adolescência e, embora já tenha mostrado algumas canções em vídeos no canal do Youtube (com milhares de visualizações), optou, por enquanto, não gravá-las em um CD. Ela também fez importantes versões de rits conhecidos como  Holy Spirit de Bryan & Katie Torwalt e Closer da Bethel Live. Sem mais delongas, conheça o som de Laura Souguellis.

Foto: Guilherme Mira

Foto: Guilherme Mira

Você já compôs muitas músicas, não pensou em gravar um CD?

Sim. Já pensei e continuo pensando e acho que estou me permitindo pensar bem antes de chegar em vias de gravar um álbum porque sou uma pessoa um tanto quanto processual. As músicas que compus nessas últimas fases da minha vida (aquelas que considero maduras e representativas de quem eu sou) surgiram de maneira muito particular, sem certas pretensões de funcionarem dentro de um contexto de gravação de CD ou “carreira musical”. É engraçado perceber as suas próprias músicas cruzando aquela linha tênue entre “minhas crias pessoais” e “o filho que eu boto no mundo”. E sinceramente, não sei se as minhas já cruzaram essa linha. Sinto que a qualquer momento posso pensar “chegou a hora”!, e em questão de pouco tempo ter um álbum pronto, com a graça de Deus e a ajuda de alguns amigos que estão de sobreaviso (risos).

Grande parte das suas canções tem parte da letra em inglês. O que a influenciou mesclar a língua estrangeira com o português nas composições?

Parte dessa característica “livre de demandas” das minhas composições é que as escrevi em inglês. Simplesmente porque gosto, simplesmente pelo papel que o inglês têm na minha vida (aprendi na infância/adolescência e depois virei professora e tradutora da língua). As linhas melódicas para compor vinham mais facilmente em inglês e eu fui dando vazão. Mas eu amo de paixão a língua portuguesa (estudei dois anos de Letras/Português na Universidade Federal de Juiz de Fora) e desde que me conheço por gente escrevo poemas e textos literários.

Acho que a nossa língua, bem como a sonoridade da música brasileira é um oceano a perder de vista para se desbravar. Talvez seja por isso que me considero ainda estar engatinhando nas composições em português. Não quero produzir coisas que não façam jus à riqueza do meu idioma e, principalmente, que não façam jus ao meu próprio processo natural de verbalização da minha caminhada com Jesus. E com o inglês é mais fácil porque a pressão com a linguagem é menor, sendo bem sincera com você.

Quando começou sua história com a música?

Lembro até hoje do Natal em que minha mãe e meu avô constataram que eu tinha “uma voz boa”. Acredito que foi no ano de 1995, quando tinha 5 anos de idade e a família tinha costume de cantar músicas natalinas em volta do piano. Meu avô e seus irmãos sempre tiveram aptidões musicais incríveis e minha mãe herdou o talento, apesar de ter escolhido focar na carreira de médica. Fiz aulas particulares de piano e posteriormente de violão na adolescência, mas não me considero uma instrumentista excelente. Muito do que desenvolvi, mesmo que “aos trancos e barrancos”, foi ao longo desses últimos 12 anos tocando e cantando na igreja, e sou muito grata por isso! Não consigo pensar em nenhum outro contexto em que uma adolescente comum tem a chance de ter uma banda com quem tocar e ganhar experiência, senão na igreja. Ainda estou em desenvolvimento das minhas habilidades na Casa de Oração onde me dedico integralmente hoje na minha cidade atual, Florianópolis, e estou separando mais tempo este ano para praticar piano.

Laura canta com Os Arrais durante participação no Culto Encontros da Lagoinha ( Foto: Arquivo pessoal)

Laura canta com Os Arrais durante participação no Culto Encontros da Lagoinha ( Foto: Arquivo pessoal)

Em vídeos no Youtube, você já gravou algumas canções dos “Os Arrais” como também já cantou junto à dupla, comente a sua ligação com eles.

Eu os ouvi pela primeira vez dentro de um carro com alguns amigos e eles logo me disseram para prestar atenção na letra de “Não Fale” (que diz “não fale que O conhece se O esquece em cada esquina”), e eu fiquei sem graça de falar para eles que havia ficado um tanto quanto ofendida com aquela letra. “Letra forte, hein?”, eu disse com um sorriso amarelo pensando que tipo de pessoas eram aquelas que tinham a audácia de me pôr em confronto com a minha própria volubilidade de fé, assim, casualmente, numa canção pop de um CD.

Quando mais tarde, navegando pela timeline do facebook, tive um segundo contato por meio da música 17 de Janeiro (genial, por sinal, você leitor pare agora e vá botar essa música pra ser trilha sonora do restante dessa entrevista). Eu me dei conta de que eles eram exatamente o tipo de pessoas que, em primeiro lugar, haviam escrito aquelas letras para eles mesmos; que haviam confrontado a sua própria falta de fé, encarado as questões complexas da alma humana e vivido processos dolorosos a ponto de incorporarem mensagens tão genuínas nas canções. Ninguém sabe por que, mas os dois irmãos abrem a boca para cantar e a nossa dor se dilata dentro do peito para que a gente dialogue com ela à luz da Palavra musicada por eles.

Nunca tinha visto nada igual e mal sabia que tinha muito mais de onde aquilo havia saído. Depois disso, foi um caminho sem volta para mim (risos). Explorei todo repertório disponível nos CDs e online, oficial e extra-oficial, como parte da minha trilha pessoal. Além dessa história toda por trás, a “ligação” mesmo aconteceu quando o Tiago Arrais esbarrou num vídeo instagrâmico meu, cantando 15 segundos da música “Esperança”. Não foi muito depois disso que o – hoje meu amigo – Tiago me chamou para embarcar com eles nas apresentações que fariam no Brasil em dezembro do ano passado. As noites cantando juntos foram um banho de lágrimas por minha parte, não simplesmente pela alegria e emoção de estar ali, que obviamente também fez parte, mas por que me dava conta o quanto eu tenho saudade de Jesus e como na dor eu me assemelho a Ele.

Você já participou do “Fornalha”, projeto dinâmico de adoração com vídeos divulgados na internet. Acredita que a música cristã está caminhando para uma direção mais livre, fora das quatro paredes do templo?

Sem dúvida existe uma expressão de Cristianismo, um testemunho de Cristo acompanhado de sinais e maravilhas para respaldá-lo, indo pra fora da igreja e afetando outros âmbitos da sociedade (como é a motivação principal do Movimento Dunamis, responsável pelo programa online “Fornalha”). Um dos aspectos deste estilo de vida, “naturalmente sobrenatural”, é a adoração, e este é o intuito do Dunamis com o Fornalha: capturar em câmera uma cultura decorrente daquele grupo de pessoas que se reúnem despretensiosamente para serem anfitriões da presença de Deus. Então eu gosto de pensar que este deslocamento “pra fora” não se trata de uma tendência ou “um novo estilo de adoração” para consumirmos como mais um produto evangélico.

Ao meu ver, uma expressão livre de louvor é resultado de uma expressão livre de ser. Eu sou, portanto, eu expresso. E é nesse tipo de movimento que eu e meus amigos do Dunamis acreditamos – indivíduos se tornando mais sadios e genuínos em Deus e isso se refletindo na cultura coletiva.

Durante entrevista, você citou perdas que teve em relação aos pais e também na área afetiva. O que estas “perdas” provocaram na Laura de hoje? O que a ajudou superá-las?

Eu sou uma somatória de longos e íntimos processos ao lado do meu mestre Jesus desde o primeiro sim que eu disse pra Ele. Os principais catalisadores desses processos foram, sem dúvida, a morte do meu pai aos meus 13 anos e a morte da minha mãe aos 16. Mas a história começa bem antes. Aos meus 2 anos de idade meus pais se separaram e, com meu pai morando fora e minha mãe fazendo cargas horárias intensas como médica, eu ficava muito sozinha em casa e acabei virando uma criança um tanto quanto independente.

A moça que trabalhava em casa não conseguia me impedir de almoçar um prato de batatas fritas e eu passava horas e horas na frente da televisão. Com pouca idade “aprendi” que podia substituir a atenção e afeto que queria dos meus pais por outros métodos de ter prazer, como comer besteiras e ver programas de tevê em que eu me projetava na personagem principal, geralmente uma mocinha amada e popular, e isso bastava. Não me condene ao ler isso, todos nós fazemos a mesma coisa. No entanto, os episódios que vieram em seguida na minha vida não eram um enredo fictício, mas um drama real que chocou o meu “mundo de mentirinha” e me deu sentimentos reais para processar. O que isso fez também é que me deu uma jornada real com Jesus.

Em face da dor verdadeira, eu fui levada a fazer as perguntas cruciais que anteriormente me recusava a fazer, como quem sou eu? E pra quê eu vim parar aqui na terra? E, principalmente, qual o verdadeiro sentido de tudo isso?. São perguntas duras de se fazer, mas que o Senhor ama nos responder ao caminhar com a gente pelos períodos mais escuros que passamos. Deste ponto de vista, as dores e perdas se tornam um presente pra nós, um mapa para descobrir um tesouro escondido de como viver de dentro pra fora, e não inebriados pelos passatempos dessa vida. Numa fase mais adulta, coube a Deus me aprofundar em outras descobertas sobre minha identidade por meio de uma perda na área afetiva que, depois de provocar um efeito devastador no meu senso de “eu”, me ensinou que no jardim do perdão nascem novos sonhos e esperança de redenção – tanto vislumbres dela nesta vida, quanto a sua ação completa no Reino que há de vir. Portanto, não somos absolutamente nada além do que o Senhor nos permite aprender através dos processos que nós nos permitimos abraçar.

Foto: arquivo pessoal

Foto: arquivo pessoal

Quais são suas inspirações musicais?

Seria um pouco injusto fazer uma lista absoluta, porque absorvo influências diversas o tempo todo, mas cresci ouvindo minha mãe colocar música popular brasileira para tocar. Sempre ouvi de tudo um pouco, movida por curiosidade e na adolescência gostava de trilhas sonoras e músicas italianas que ninguém mais conhecia no Brasil. Dentro do movimento de adoração internacional eu também ouvi e ouço de tudo – Hillsong, Hillsong United, Jesus Culture, Bethel Music. Recentemente tenho explorado mais artistas autorais que compõem a partir de processos criativos particulares e sinceros (a exemplo d’Os Arrais), dos quais posso citar Will Reagan, Andrea Marie, Josh Garrels, Audrey Assad e outros. Hoje em dia, o meu CD preferido tem sido “Love Will Have Its Day”, da incrível Laura Hackett, que além ser uma líder de adoração local tem canções autorais belíssimas.

Novidades pela frente no trabalho musical?

Neste dia 28 de fevereiro pego um avião para São Paulo, para gravar um novo Fornalha depois de quase um ano e meio do último. Além de novidades na qualidade de captura e distribuição, um dos pontos mais legais desta gravação para mim é que, diferente do último em que fiz versões americanas, este vai contar com a maioria de canções originais minhas. Acho que as minhas “crias” vão se soltar nesse mundo afinal.

Ouça:

:: Érica Fernandes