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Lorena Chaves sem rótulos e clichês

Lorena durante entrevista em sua casa no Santo Agostinho (BH)

Lorena durante entrevista em sua casa  (BH)

A menina que começou a ser conhecida pela participação no programa Ídolos, na Rede Record em 2008, amadureceu e hoje, aos 26 anos, faz carreira solo com seu primeiro disco, gravado em abril deste ano no Teatro Bradesco, Belo Horizonte, MG. Não foi apenas a carreira de Lorena Chaves que mudou, agora ela é cristã e tem uma vida totalmente transformada pelo evangelho.

Embora confesse não ser uma cantora “gospel”, ela admite que grande parte do seu público é cristão. “Na verdade, achei que seria muito criticada no meio evangélico. Achei que as pessoas não entenderiam a proposta, mas tem acontecido o contrário”, relata sobre o álbum que leva como título seu nome com 12 canções que passeiam pelo folk e MPB.

Ainda sobre o público cristão, Lorena conta que a polêmica envolvendo a Revista “Veja BH”, onde foi divulgada a frase em que supostamente teria dito ter “nojinho” gospel não afetou seu trabalho. E conclui dizendo que Deus é o seu juiz e, por isso, não precisa se defender. Durante a entrevista, ela abre as portas da casa, literalmente, e fica à vontade para falar tudo que Deus tem feito dentro e fora da música.

Lagoinha.com: Irreverente, inovadora é o que se vê por ai, mas afinal quem é a Lorena Chaves?

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Lorena Chaves: Essa pergunta já me fizeram algumas vezes e a cada vez respondo de um jeito diferente. Acho que estou passando por uma metamorfose, em que estou sempre aprendendo. As experiências da vida têm me ensinado valores que me fazem ser diferente do que era antes. Acredito que sou uma pessoa em constante mutação. Não saberia ao certo me definir. Agora se fosse para falar sobre características minhas, diria que sou muito alegre, me vejo também como uma pessoa difícil por ser perfeccionista principalmente, com meu trabalho. Para gravar meu álbum, foi bem difícil, porque tudo teve que ser do meu “jeitinho”.

Lagoinha.com: Você disse que vive em constante metamorfose, o que a Lorena de hoje tem de diferente?

Lorena Chaves: Acho que na questão do foco de vida. Deixei de priorizar as coisas materiais e o sucesso da carreira, e não pensar apenas nos que são da minha família, mas nas pessoas de forma geral. Passei a me preocupar com o que transmito, não apenas através das minhas músicas, mas das minhas atitudes, na forma de tratar o outro.

Lagoinha.com: Nasceu em lar cristão, mas em uma das suas entrevistas conta que antes de entregar a vida para Cristo era ateia? Como se deu esse distanciamento da fé?

Lorena Chaves: Eu não era exatamente uma ateia. Acreditava que pudesse existir alguma coisa sim, mas não tinha uma experiência com Deus. Cresci na igreja e via Deus em meus pais, principalmente, no relacionamento entre eles, que era muito bom, no entanto, eles sempre me obrigavam a ir aos cultos. E quando você vai crescendo e virando “aborrecente” essa obrigação começa a pesar, porque era uma igreja pequena e às vezes o pessoal queria fazer uma programação depois do culto que eu achava um “tédio”.

Ao mesmo tempo, o pessoal da faculdade já fazia coisas muito mais interessantes. Além do mais, sempre fui hiperativa e queria liberar essa energia, e na igreja isso não parecia muito possível. Acabava o culto, e os jovens só queriam sair para comer uma esfirra, então eu pensava, “nossa, mas o povo só come”! E hoje eu sei que é assim mesmo (risos). A minha igreja era mais tradicional e não sabia muito lidar com a questão dos adolescentes. Não sabia muito bem conversar com o adolescente e entender a mente da juventude. Acho que a gente tem que aprender a viver na liberdade que temos em Deus, e não se preocupar muito com regras excessivas. Acho que isso é um problema, porque cria jovens rebeldes, não estou falando que a culpa é da igreja pelo meu distanciamento na fé, porque hoje creio que Deus tem um tempo para tudo. Foi importante o que vivi, e reuni bagagem para ser quem eu sou e saber que só Ele tem poder para transformar mesmo.

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Lagoinha.com: E quando aconteceu esse momento de “transformação” na sua vida?

Lorena chaves: Minha irmã mais nova começou a frequentar uma Célula da igreja que hoje sou membro, Batista Central do Luxemburgo. Ela começou a ir à Célula e também me convidava para frequentar. Lembro que falava: “Lana, tudo que tiver a ver com Deus, Bíblia não precisa me chamar, porque não vou”. Dizia isso, porque me lembrava de como era ruim participar das atividades obrigada e de como não gostava de jeito nenhum da antiga vida. No entanto, percebi que minha irmã estava ficando diferente. Ela passou a me tratar com mais amor. Então, teve uma época que ela parou de ir e voltou a ser a pessoa de antes, então, disse para ela. “Lana, eu acho que aquela reunião que você frequentava era muito boa para sua vida, você precisa ir novamente.” Então, ela ficou impressionada ao me ouvir dizer isso e falou que eu também precisava participar, respondi que isso era para ela e não para mim.

Depois de um tempo, a Célula passou a ser na minha casa, às 23h, nas sextas-feiras. Então comecei a fugir daqueles encontros, e como era uma mulher da noite, sempre gostei de shows e festas, fugir não era muito difícil. Mas houve um dia que estava chovendo muito e não tinha como sair de casa só se eu ligasse para um “disque balsa” ( risos), para me buscar, porque tudo estava inundado. Então pensei comigo: “Ah quer saber? vou participar desse negócio!”

Ao som do primeiro acorde, que o menino tocou para iniciar o louvor da reunião, já comecei a chorar muito e Deus começou a falar comigo de uma maneira muito “louca”. Então já me ajoelhei e comecei a contar os meus pecados e foi uma coisa muito instantânea. Disse em voz alta: “Eu quero Deus, eu quero Deus”. No outro dia ajoelhei-me no pé do meu pai e da minha mãe pedindo perdão pela filha que era, e como eles haviam me aguentado por tanto tempo.

Lagoinha.com: Você disse que a igreja não sabia receber alguém como você, e agora? A realidade das igrejas mudou?

Lorena Chaves: Na verdade, eu que mudei. Quando a gente quer ter um relacionamento com Deus a gente tem. A Bíblia diz em Jeremias, “e buscar-me-is, e me achareis, quando me buscares com todo o vosso coração” (Jr 29.13). A partir do momento que você busca, Ele está pronto para o receber. E também diz: “Eis que estou à porta, e bato; se alguém ouvir a minha voz, e abrir a porta, entrarei em sua casa, e com ele cearei, e ele comigo” ( Ap 3.20). Deus se mostra um gentleman e respeita as nossas decisões.

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Lagoinha.com: Recentemente, a Veja BH fez uma entrevista afirmando que você havia ter dito ter “Nojinho” do rótulo gospel. Como essa frase repercutiu na sua igreja?

Lorena Chaves: Para ser muito sincera, liguei na hora para um dos pastores, e falei com eles sobre o absurdo e enviei a nota da revista. Então, ele me disse: “É na hora das crises que a gente vê quem está perto de você. Quem gosta de você; estou do seu lado, porque amo você”.

Lagoinha.com: Você ficou assustada com a repercussão que poderia dar?

Lorena Chaves: Não. No dia que minha produtora me ligou contando o fato, fiquei enjoada e muito mal. Houve uma pessoa que me ligou no desespero e colocou o negócio gigante. Pelo menos a repercussão da entrevista na “Revista Veja” não chegou até mim nessa proporção. O Senhor sabe o que falei ali, Deus é meu juiz. E também orei a respeito. Essas coisas acontecem não só comigo, mas com todo tipo de artista. Na época que participei do “Ídolos”, dei entrevista para uma revista e lembro que saiu muita coisa distorcida.

Nunca falaria daquela forma como a “Veja” publicou, realmente não sou a favor de rótulos, não sou uma cantora gospel, canto música brasileira, canto músicas que falam sobre a minha vida, sobre o comportamento do ser humano, não canto músicas que falam diretamente de Deus, posso, por exemplo, fazer como Davi fez quando Jônatas e Saul morreram. Davi compôs uma música fúnebre, Ele não fez uma música falando “Jesus”, “Senhor”, “Deus”, ele simplesmente fez uma música fúnebre. Na Bíblia relata várias músicas diferentes como Cantares que expressam versos de amor de um homem por uma mulher.

Já recebi alguns recados do tipo: “Não vejo Palavra Deus na sua música”, e isso me incomoda, porque penso: “Então, essa pessoa não leu o livro de ‘Ester’, nem ‘Cantares’”. Acredito que muitas pessoas dentro da igreja saem de uma escravidão do pecado e entram em outra escravidão de religiosidade.

Lagoinha.com: Você é cristã, mas não se intitula uma cantora gospel, na verdade quem é o seu público?

Lorena Chaves: Tenho um público cristão grande, são meus irmãos, graças a Deus. Tenho público ateu, tenho público de qualquer outra religião que se identifica com o que digo nas músicas como o amor entre homem e mulher, ou crítica a sociedade como “Memória de um Narciso”. Não quero deixar meu público restrito. Recebo vídeos de crianças cantando “Portão Azul” e fico impressionada, por serem filhos de pastores conhecidos. Eu não sei falar quem é o meu público, mas sei que a maioria é cristão, por se identificar com as músicas.

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Lorena e Marcos cantam juntos no Teatro Bradesco (BH)

Lagoinha.com: Você conta com a participação de Marcos Almeida do “Palavrantiga” na música “Cartão Postal”. Assim como você, ele também é cristão, mas não se intitula um cantor gospel. Fale sobre essa parceria? Acha que vocês têm a mesma linha de pensamento em relação a música cristã?

Lorena Chaves: Conheci Marcos antes de converter, foi muito “louco”. Conheci-o aqui em casa. Na época, havia ficado internada no CTI porque tive pneumonia e depois fiquei em casa me recuperando. Então, um dos pastores da igreja da minha mãe o trouxe para jantar em minha casa. Ele me deixou o ouvir a música “Rookmaaker”. Fiquei muito impressionada com a profundidade das letras. Além de amiga, irmã do Marcos eu sou fã dele e dos meninos do “Palavra”, por essa transparência e por viver essa vida de transparência. Realmente não gosto de ritual religioso e de jargão. Não gosto de nada disso. Ele é mais contido, mas eu, falo mesmo!

Lagoinha.com: Você disse que ele mostrou a música “Rookmaaker” antes de gravar e essa atitude foi recíproca?

Lorena Chaves: Sim. Inclusive na música “Pra sempre”, eu estava em dúvida na melodia. Então, ele estava na minha casa com a esposa. Eu não sabia como fazer uma ponte na música, e ele pegou o violão e me ajudou. Ele também opina nas minhas músicas e é sincero no que diz.

Lagoinha.com: Sua família que é cristã e tem um gosto peculiar pela Música Popular Brasileira, acha que o seu gosto musical vem de berço?

Lorena Chaves: Influenciou muito. Cresci ouvindo MPB. Minha mãe sempre coloca para tocar na nossa casa “Lulu Santos”, “Bossa Nova”, “Beatles”. Gostava de escutar isso. Na escola que estudei tinha aula de música e tocava muito MPB e cresci ouvindo isso. Acho legal, quando você é sincero no que escreve.

Lagoinha.com: Jesus. Quem é Ele para você?

Lorena Chaves: Jesus é o que vale a pena. É o significado da vida, Ele é a vida. Tenho certeza. Uma vez uma menina me perguntou: “Como você sabe se isso que você segue é a verdade?” E ela é de outra religião. Então, respondi: “Quando fui de encontro com o evangelho, percebi que Jesus é o único capaz de transformar uma vida, então se Ele muda uma vida, não tem como ser mentira. Fui transformada”. Vejo fotos, vídeos antigos e nem consigo me lembrar direito de quem eu era. Estar com Cristo, é andar na contramão do sistema. O mundo começa a pregar uma coisa e você passa a ser algo totalmente diferente, que na verdade é muito difícil.

Não vale a pena nada na vida, casar, construir carreira, ou mesmo dar essa entrevista, se a gente não olhar para o alto. Um dia tudo vai passar, se a gente não viver olhando par ao alto nada vai valer a pena. Jesus é tudo. Vivo para falar Dele, não só através da música, mas da minha vida.

Lagoinha.com: Como estão as expectativas para apresentação no teatro Ney Soares no dia 16 de agosto?

Lorena Chaves: Estou muito feliz por fazer mais um show em teatro, porque acho legal, quando as pessoas vão para prestar atenção no que você está oferecendo. Confesso que no lançamento do CD, em abril deste ano, não consegui relaxar. Fiquei pensando no que as pessoas estavam achando, se as pessoas estavam gostando e dessa vez estarei totalmente livre. Espero que todo mundo possa ir.

Confira abaixo a música “Cartão Postal” na voz de Lorena e Marcos Almeida.

Mais informações: 

Lorenachaves.com

Fotos: Internet e Cristiane Soares

:: Érica Fernandes