Em conversa descontraída, durante uma pausa nas gravações do novo álbum “Sobre o mesmo chão”, no estúdio do Diante do Trono, os integrantes do Palavrantiga Marcos Almeida e Lucas Fonseca, falam sobre o começo da banda, projetos em processo de construção e compartilham seus pensamentos e reflexões a respeito da música cristã brasileira. E eles deixam claro que só existe uma explicação para o que é o Palavrantiga: “Uma banda de rock brasileiro que explica, a nossa realidade, a partir de uma vivência da fé cristã, uma vivência cheia de erros e acertos.” E ainda afirmam que “fazem o maior esforço para viver o que cantam e sem muitos lero-leros.”

Lagoinha.com:Em que momento da vida aconteceu o encontro de vocês? Como dois mineiros e dois capixabas se conheceram e decidiram montar uma banda?

Lucas Fonseca: A gente se conheceu na estrada, em 2002 quando a Heloísa Rosa foi fazer um evento de uma semana em Vila Velha (ES), cidade onde moram o Josias (guitarrista) e o Felipe (baixista). Como a Heloísa não tinha banda, nos convidou para tocar com ela. Dois anos depois, eu e Filipe começamos a viajar com ela e pouco tempo depois entraram o Josias e o Marcos. Após um tempo tocando juntos fomos nos conhecendo e estreitando a nossa amizade. O “marquinhos” tinha umas canções que ficavam escondidas no baú (risos) e resolveu nos mostrar algumas delas. Na ocasião nós gostamos muito e até falamos que tínhamos que gravar a música, e olha que nem pensávamos em banda, muito menos na existência do Palavrantiga. Em 2007 a Heloísa Rosa deu uma pausa nos projetos musicais, dispensou os músicos e viajou para os Estados Unidos para estudar. Após alguns meses de muitas conversas e reflexões sobre gravar ou não as músicas do Marcos, decidimos em Janeiro de 2008 vir para Belo Horizonte e produzir as músicas dele. Ficamos duas semanas enclausurados e conseguimos gravar nosso primeiro EP (tipo de gravação). Em todo esse processo não sabíamos se ia dar caldo, se ia ter estrada, se ia ter agenda, se as pessoas iam gostar ou não. A única coisa que sabíamos era que estávamos gostando do que estava acontecendo. Disponibilizamos as músicas do EP no “Myspace” e deu muito certo, a galera começou a curtir demais e surgiu a necessidade de gravar um disco. Assim as coisas foram acontecendo e acredito que tudo dentro do tempo de Deus que foi dando as porções necessárias na época certa.

Lagoinha.com:Quando vocês escolheram o nome ‘Palavrantiga’? Como chegaram a esse nome?

Marcos Almeida: Queríamos dar um nome para banda que remetesse a duas coisas: a tradição, ortodoxia, aquilo que amparou nossos pais e atravessou as gerações, e que tivesse um som legal. Pensamos em vários que incluísse esse conceito até que um dia estava indo para uma feira literária aqui em BH e me veio esse nome “Palavrantiga”. Cheguei em casa, escrevi a palavra no papel e um amigo desenhou. Então, inventamos uma palavra nova que remete a tradição e ao mesmo tempo aponta para uma novidade. Tivemos a felicidade de criar uma palavra que é ao mesmo tempo antiga e quando você a vê graficamente escrita ela não existe. Quando coloquei tudo junto no Google: “palavrantiga” o site colocou assim: “Palavra cantada”, “palavra não sei o que” e escreveu “Você quis dizer outra coisa”. Quando vi que não tinha nada, nenhuma menção no planeta a “Palavrantiga” concluí que era esse nome mesmo porque era único e original. As explicações surgem sempre depois. Um amigo nosso explicou de um jeito brilhante: “Palavrantiga é porque não é de hoje, por isso vocês escolheram esse nome.” Um aluno meu disse assim: “Professor, você colocou o nome da sua banda de Palavrantiga porque você vai ficar velho um dia.” Já preparamos um nome que dure até a velhice (risos).

Lagoinha.com: Como funciona o processo de composição da banda?

Marcos: Depende muito da fase, por exemplo, na época do “Esperar é caminhar” apresentei para os meninos canções que criei sem a preocupação de compor para um disco. Queria fazer uma música que fosse sincera e que expressasse o que estava vivendo. Então, as músicas nasceram em momentos de muito silêncio, era solteiro, morava com minha mãe, passava quase que o dia inteiro sozinho e ficava umas quatro horas tecendo algumas coisas no violão. Agora, nesse tempo de hoje, as composições nascem em uma fase mais caótica. Encontrar silêncio no ritmo que a gente está, encontrar um momento seu de reflexão é muito raro. Então, isso torna o processo criativo diferente. Você tem que criar possibilidades para a criação. Uma coisa que a gente fica tranquilo é que não existe só um jeito de criar. No início ficava meio neurado: “Tem sempre gente para conversar, tem uns 200 e-mails para responder, gente ligando pra gente viajar. Vou parar não vou viajar mais, vou desligar o celular.” Aí vem o casamento, aí casou minha filha… (risos) agora está chegando o Joaquim e será uma nova realidade. Será outra música, outro contexto, outro sentimento. Então estou aprendendo a criar em outro ambiente, ambiente do pai de família (risos), agora será uma música mais barulhenta, provavelmente.

Lagoinha.com: Que tipo de influência o Palavrantiga quer ser na vida das pessoas?

Marcos Almeida: Influência é tudo na vida. Você está me influenciando agora com o que está me perguntando. O entorno, essa sala, esse lugar onde estamos, tudo é influência. Naturalmente, quando você faz uma composição, quando você cria algo, quando você transforma coisas, isso, afeta outras pessoas. Nós não podemos mensurar o que isso causa e não acho muito legal ficar fazendo estatísticas a respeito do retorno disso. Porque se não você pira pensando: “Isso é por minha causa, por causa da minha grande sabedoria ou grande dom e que o mundo não vive sem mim.” Os caras que leio e ouço, o pastor, meus amigos e minha esposa me influenciam muito. Não é por que somos músicos que estamos na categoria “dos caras” que influenciam mais. Mas estamos em um patamar que toma uma proporção maior. As pessoas vão nos ouvir e nos ver como uma referência, porém, todo mundo que ouve o nosso som e lê o que escrevemos sabe que enxergamos o mundo sem essas divisões, sem esses rótulos de “gospel” ou “secular”. Não somos nada disso, não queremos criar muros e separar as pessoas. O mais importante é ser honesto com aquilo que você está cantando e professando e nós fazemos o maior esforço para viver antes e sem muitos “lero-leros”.

Lagoinha.com: Na opinião de vocês, a arte cristã está tentando se adaptar aos meios de comunicação deixando de fazer algo original ou pelo contrário tem feito bom uso da mídia para apresentar o evangelho genuíno para a sociedade brasileira?

Marcos: Vejo uma cultura emergindo para a grande mídia. Ela já existia, estava aí sendo trabalhada por mecanismos e estruturas das próprias igrejas e ministérios. Hoje ela emerge a nível nacional e as pessoas estão tendo conhecimento de algo que já estava acontecendo sem essa exposição toda. Encaro isso como um processo histórico de desenvolvimento da nossa cultura. À medida que ela vai se convertendo ao evangelho e à explicação evangélica do evangelho. É natural que essas pessoas que produzem arte, que vivenciam essa fé, apareçam, porque as televisões, como “representantes do povo”, têm que falar das coisas que estão acontecendo. Daqui a pouco creio que teremos autores que vão escrever e pensar literatura, poesia, cinema e novela, a partir da cosmovisão cristã porque à medida que o povo vai sendo evangelizado você precisa dar explicações para além do âmbito da religião. Por exemplo, como que o cristão vai pensar política? Qual a explicação do cristão sobre a mídia? Moda? À medida que esses cristãos vão entrando nesses meios ou a turma desse meio vai se convertendo você não pode tirar todo mundo e colocar dentro da igreja criando um grande monastério, onde todo mundo fica rezando o dia inteiro. Você tem que dar explicações. Um detalhe dessa história toda é que, embora a grande massa seja cristã e evangélica, a esfera da mídia e a esfera das artes, as duas, principalmente foram mais bem exploradas e absorvidas por gente que não professa a nossa fé. Falta à turma que crê no evangelho, que gosta de cinema e novela dar outra explicação mostrando a nossa realidade a partir do evangelho. O palavrantiga é isso, é uma banda de rock brasileiro que está explicando, a nossa realidade, a partir de uma vivência da fé cristã, uma vivência cheia de erros e acertos.

Lagoinha.com: Marcos, fale um pouco do livro que você está escrevendo, qual tema será abordado?

Marcos: O livro chama “A nossa brasilidade” e vai falar sobre a forma de a gente ser brasileiro. Não pensar mais como um mundo cristão, mas o mundo é o Brasil, é isso aqui, a nossa terra, pensar no país, pensar no nosso povo. O que é ser brasileiro? Será que existe outra brasilidade? Ou só existe uma? Será que a brasilidade é samba, cerveja, pagode, mulher nua etc e tal? Não, não acredito nisso. Existem muitas brasilidades e uma delas é a brasilidade daquele que crê e tem esperança, que vive o evangelho e leva Jesus a sério. Como que é a brasilidade de quem leva Jesus a sério? Que foi afetado pela pessoa de Jesus, é sobre isso que vou falar no livro.

Lagoinha.com: Quais os próximos projetos do Palavrantiga?

Marcos: Temos o projeto do nosso primeiro CD/DVD ao vivo “Uma noite em Recife” e estamos na expectativa de lançá-lo de alguma forma. Temos o registro do show todo que pode ter vários formatos. Ele pode ser transformado em vídeo clipes, em promo da banda e ser um DVD ao vivo, então são “N” possibilidades.

Lucas: Estamos gravando agora um disco que deve sair lá para outubro, com músicas inéditas e o nome do projeto é “Sobre o mesmo chão”. Ele está muito mais inserido no diálogo e debate que tivemos ao longo desta entrevista.

Marcos: A partir do momento que as pessoas ouvirem as novas canções, talvez, entendam um pouco mais sobre o que estamos dizendo.

Fotos: João Paulo Fortunato

::Kátia Brito

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