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Unção e arte na ponta do lápis

Unção e arte na ponta do lápis
Em entrevista exclusiva, idealizadora e criadora da formiguinha Smilingüido, fala de sua vida, seu trabalho e seu ministério 

Quem nunca a viu ou ouviu falar dela? Sempre alegre e sorridente e às voltas com aventuras e peripécias inocentes e de fundos bíblicos, a formiguinha Smilingüido e sua turma está sempre presente em festas de aniversários e eventos infantis, nos quartos da criançada e até mesmo no imaginário e na vida dos adultos. Isso mesmo. Os grandões também a amam. Apesar, contudo, do seu grande sucesso, poucos ou quase ninguém conhece a pessoa que a idealizou e a criou: Márcia d’Haese. Márcia ainda se lembra de seu primeiro desenho. Foi aos 6 anos, quando estava na escola. Lá, sua professora orientou os alunos para o primeiro trabalho artístico, cuja proposta era a de um desenho de tema livre na primeira folha do caderno de desenho. “Eu não sabia o que desenhar e fiz qualquer coisa”, conta ela. “Cheguei em casa e pedi a minha mãe fazer um desenho para mim. Ela fez uns desenhos lindos de princesas e castelos, colocou um cenário…fez animais… ela desenhou tão bonito, e eu nem sabia que ela desenhava”

Seu primeiro trabalho foi para a ABU Editora (da Aliança Bíblica Universitária) com capa e desenhos, para um livro de cânticos. Mais tarde, ela ilustrou o trabalho Criança Feliz, para a rádio Transmundial e para as publicações da SEPAL (Serviço de Evangelização Para América Latina), para o pastor Jaime Kemp. Daí, não parou mais. Ela se converteu quando ganhou sua primeira Bíblia, no seu aniversário de 9 anos. “Comecei a ler, a ler, a ler, a ler… Então eu disse assim: ‘Senhor Jesus, se essas pessoas (José, Abraão, Moisés, Ana, Pedro, Paulo, Maria, Marta, etc), ficaram Suas amigas, eu quero ser, também! Eu quero que o Senhor seja meu amigo, meu Salvador e dono da minha vida’”. A partir daí, sua vida jamais seria a mesma. Sua arte e obra também não.

Márcia Macedo d’Haese hoje é casada e tem filhos. Atualmente, está à frente da turma do Mig Meg – e de vários outros projetos. No início, quando ainda bem novinha e antes de seu primeiro trabalho como profissional, sempre que desenhava, usava papéis de enrolar pão, ou folhas que seu pai trazia do trabalho, com um dos lados em branco. “O maior tesouro que eu podia ter”, relembra, “era uma folha branquinha dos dois lados!!!”. Nessa entrevista que concedeu com exclusividade ao Lagoinha.com, ela conta como tudo começou, quando passou a se interessar por desenho, de onde tira inspiração para suas personagens, e muito mais. Ao fim, deixa seu recado para os pimpolhos – e também marmanjos – do lagoinha.com.

Lagoinha.com Como surgiu a idéia de fazer o Smilingüido e de onde tirou seu nome?
Márcia: Todo mundo faz essa pergunta. Não foi uma idéia que surgiu de um dia para o outro, como se eu já soubesse pra onde estava indo. Nasceu como nasce uma florzinha no campo. Eu ouvia uma linda história chamada A Formiguinha e a Neve quando bem criança. Era um disquinho de vinil. Essa história marcou muito minha infância. Depois, na adolescência, tive um amigo com o apelido “Formiguinha”. Depois, na Faculdade de Educação Artística, em paralelo com o que eu desenvolvia artisticamente, eu fazia muitos personagens, especialmente insetos. A formiguinha estava sempre comigo: quando fazia um bilhete para alguém, uma dedicatória, quando escrevia uma carta… Depois do nosso casamento, Hialmar e eu fundamos a ARVICRIS junto com outros jovens. Foi então que eu trouxe essa formiguinha para o grupo, e começamos a fazer audiovisuais. O Catito escreveu a primeira história para essa formiguinha, Smilinguido e as Sauvitas, onde a formiguinha recebeu nome e contexto pela primeira vez.

Lagoinha.com: Por quanto tempo esteve com o Smilingüido e sua turma e qual a sua repercussão desde que o criou?
Márcia: ARVICRIS viveu uns 18 anos. Dez anos independentes e mais 7 anos depois da junção com a Editora Luz e Vida. Começamos com três desenhistas: eu para o traço, Márcia (chará) e Rute para a cor. O Catito foi o autor das histórias. Dieter e outros ficaram na produção técnica, outros na área de atendimento… Não dá pra citar todos. Depois, o Catito, Márcia e Rute se afastaram do grupo, para estudar, casar, etc. Dieter escreveu algumas tiras. Eu comecei a fazer os roteiros e textos também. Havia uma estagiária comigo durante um ano. Depois, fiquei sozinha na criação. Hialmar era o editor e dirigia o grupo todo. Nesse tempo, estávamos com as filhotas pequenas, e eu precisei dividir muito minhas tarefas. Foi suado! Depois, em 1990, nas dependências da Luz e Vida – a editora irmã que tinha há muito tempo uma estrutura forte de distribuição – contratamos duas desenhistas para fazer o primeiro desenho animado. O Dieter gerenciava o departamento de desenho animado, e o Hialmar, como editor, contratou mais quatro ou cinco pessoas para fazer livros, figurinhas, cartazes, posters, camisetas, histórias para fantoches, álbum de História em Quadrinhos, e todo o marketing e propaganda. Cito aqui o nome de David Araújo, que entrou como roteirista das muitas histórias que foram produzidas graficamente. Chegamos até a formar um grupo de teatro com oito pessoas, para apresentações e evangelismo. ARVICRIS chegou a ter 21 pessoas trabalhando com o Smilingüido.

Lagoinha.com: Como teve a idéia de criar a turma do Mig Meg e qual a repercussão desse trabalho?
Márcia
: Agora sim, essa idéia não surgiu assim tão naturalmente. Foi a necessidade de continuar o trabalho, o ministério, até mesmo o sustento, e a ordem de Deus em continuar. Em 1997 nasceu a ARCO, Arte e Comunicação, o Hialmar é o editor e eu sou a criação. Depois de 18 anos de experiência com o Smi, senti a necessidade – não de substituí-lo, nem de comparar o trabalho atual com o anteiror, ( eu detesto as palavras “concorrência” e “consumo” ) mas de identificar as crianças e jovens com a sua humanidade, com a possibilidade de falar de Jesus como Salvador dos Homens, Deus Conosco. Inventamos um novo personagem, um menino, Mig ( Miguel ) e Meg ( Margarete ) e características que fossem áreas de interesse comum com nossas crianças brasileiras: esporte, futebol, (Mig) música, imaginação, arte (Meg). Em seguida vieram: Pati: adolescente: estética, visual, sexualidade. Júlia: conhecimento, cultura, sabedoria, adoção. Tom: conforto, bem estar, comida. Spot e Buzz, o vagalume feliz e bem humorado é criativo, e Buzz, o pernilongo ranzinza e mal humorado fazem a metáfora dos sentimentos dos personagens humanos. Enfim, a proposta é muito rica, graças a Deus, que fertiliza o coração e a alma da gente.

Lagoinha.com: De onde vem a inspiração para criar suas personagens e suas histórias? 
Márcia: Basicamente do Criador, que nos faz a sua imagem e semelhança. Mas sem espiritualizar, posso dizer minha vida é um caminho de perguntas e descobertas a partir de tudo o que me cerca. Não é só pra mim. Temos filhas hoje adolescentes, temos uma família, uma igreja, um contexto social, injustiças sociais, deturpações teológicas, uma mídia que pressiona, vivemos no meio de tudo isso. O que eu faço é expressar de forma criativa, minhas questões e descobertas, e anunciar que existe acima de tudo um Deus justo e amoroso.

Lagoinha.com: Já pensou em fazer um filme com a turma Mig Meg? 
Márcia: Sim, estamos pensando nisso, dando pequenos passos, de acordo com o tamanho da ARCO.

Lagoinha.com: Que trabalhos está desenvolvendo com a turminha do Mig Meg? Algum produto novo?  Márcia: A ARCO, nestes cinco anos de vida, já produziu na linha Mig&Meg: quatro Histórias de 35 minutos em livro e CD, três Musicais de Natal, um Musical de Páscoa, dois musicais comemorativos (Dia das Mães e dos Pais ), duas Coleções Temáticas com 10 livros cada, seis Caixas Temáticas com cartões Passe Adiante (em 12 modelos), seis Temas em Mini-figuras, com 14 modelos de versículos ilustrados, dois Livros de Tirinhas e Charges Stickers, estampas em transfers, posters, um trabalho para Campanha de Prevenção ao Uso de Drogas (com kit manual, cartaz, CD book)… Como produto novo, a gente tem as agendas Mig Meg, Cartões Duplos, e o novo musical Noite Feliz – A História das Canções de Natal, com músicas tradicionais de Natal. A Tribo da Selvação é agora uma linha nova de produtos e personagens, criados por Block, Zoelnner e Catito (o mesmo do Smilingüido) e a ARCO produziu vários cartões duplos diferentes e muito bem bolados (para adolescentes), uma agenda, e ganhou prêmio ABEC de literatura infanto-juvenil na Bienal de São Paulo 2002.

Lagoinha.com: O que mais faz além de criar personagens e histórias? 
Márcia: Além de desenhar, escrever, compor, dirigir, revisar, consultar, pesquisar, responder e-mails, dar entrevistas, eu assessoro tudo em casa, como qualquer esposa, mãe, dona de casa, e também participo do grupo de louvor em minha igreja, no piano, e outras coisas que tenho me proposto a fazer na área social.

Lagoinha.com: Mudou alguma coisa em sua vida desde que se lançou em seu trabalho?
Márcia
: Desde que surgiu a ARCO, minha vida espiritual, familiar, ministerial, profissional tem sido uma coisa só. A ARCO funciona em nossa própria casa, e está tudo acontecendo simultaneamente. Isso mudou muito, do tempo em que cada área de minha vida tinha um tempo exclusivo.

Lagoinha.com: As personagens e histórias a influenciaram e a ajudaram na criação de seus filhos? 
Márcia
: Eu acho que nossas filhas é que influenciaram e ajudaram na criação de nossas personagens.

Lagoinha.com: Que recado deixaria a essa turminha de baixinhos, altinhos também, que se liga na internet?
Márcia: Desejo que todos nós, cristãos, como um só povo, dediquemos os nossos pensamentos e sentimentos ao Senhor, nossos dons e talentos para o Seu reino, e que possamos nos amar, valorizar, perdoar e compreender uns aos outros. E que a gente saiba viver no mundo que Deus criou, aprendendo a gastar o tempo direito. Não deixemos o computador ser um ladrão do nosso tempo precioso!!! (eu me incluo!)

Marcelo Ferreira
marcelo.ferreira@lagoinha.com