No presente texto, finalizamos uma sequência de dez artigos sobre o Fruto do Espírito. O último fruto listado pelo apóstolo Paulo em Gálatas 5.22 é o “domínio próprio”. O termo grego é “egkrateia”, cuja raiz “kratos” significa “ter domínio sobre”, “exercer poder sobre”, “ter autoridade sobre”. O termo se relaciona à autoridade sobre os desejos carnais, como o sexo impuro, a glutonaria, a bebedeira e a conversa vã. Remete à pessoa que sabe conter-se, que sabe controlar a língua, olhos, mãos, ouvidos, pés e o corpo como um todo. Trata-se de alguém que não é vencido pelo pecado, pois “de quem alguém é vencido, do tal se torna escravo” (2 Pedro 2.19). Quem é vencido pelo pecado se torna escravo do pecado. Nós, porém, libertos do pecado por meio do sacrifício de Jesus, devemos viver em santidade, como pessoas que têm domínio sobre o corpo e sobre as vontades.

Em hebraico, a palavra “’aphaq” é um dos termos equivalentes ao grego “egkrateia”. O termo aparece em Gênesis 43.31, quando José, após chorar muito ao rever seus irmãos, lava o rosto, contendo (yith’appaq) a emoção, e ordena que a refeição fosse servida (Gênesis 43.30-31). Ou seja, o termo remete uma pessoa que sabe controlar seus impulsos, assim como Cristo, que em tudo foi tentado, mas nele não se achou pecado (Hebreus 4.15).

Outra palavra hebraica relacionada é “‘apheq” (“fortaleza”), que geralmente é traduzida por “Afeca”, nome de uma cidade fortificada. Assim também é o cristão que cultiva o fruto do domínio próprio (‘aphaq), é como uma fortaleza murada, protegido pela armadura de Deus (Efésios 6), impedindo que as riquezas que estão em seu interior sejam retiradas, e não permitindo que tudo de ruim invada seu íntimo. Aquele que tem domínio próprio, ao controlar-se, oferece ao ímpio um testemunho de vida, e fica imune às “astutas ciladas do inimigo” (Efésios 6.11).

A palavra ‘aphaq também se relaciona com o termo “aphiyq”, que pode ser traduzido como “leito do rio” (Isaías 8.7), pois este contém as águas, impedindo que elas se percam. Da mesma forma, o cristão que manifesta o domínio próprio é uma pessoa contida porque guarda em si a Palavra de Deus, que flui como um rio que jorra para a vida eterna e o limpa de todo pecado (João 15.3). Ele não deixa que a palavra se perca, seja roubada como a semente levada pela ave (Mateus 13.4), mas a anuncia ao abrir sua boca (João 4.14), de modo que não a desperdiça, pois não volta vazia (Isaías 55.11).

É curioso que outra palavra relacionada ‘aphaq (“conter-se”, “domínio próprio”) é “puqah”, que significa “tropeço” (1 Samuel 25.31). Cristo é uma Rocha de edificação (Atos 4.11), e nós também somos pedras vidas que edificamos o templo de Deus (1 Pedro 2.5). Todavia, para os rebeldes, Cristo e os cristãos são “pedra de tropeço para os que tropeçam na Palavra” (1 Pedro 2.8). É por isso que o mundo nos odeia, pois somos uma pedra de tropeço que ofende o ímpio, já que o faz perceber a podridão de seus pecados, assim como o apóstolo Paulo quando caiu do cavalo pelo poder de Deus e foi capaz de enxergar seu erro (Atos 9.4).

Quem cultiva o domínio próprio se torna uma pedra de tropeço para aquele que o ofende, pois o ofensor espera receber de volta outra ofensa, assim como o versículo que diz: “um abismo chama outro abismo” (Salmo 42.7). Todavia, quando respondemos uma ofensa como um ato de amor, nos tornamos um tropeço para o plano de agressão, e ficamos parecidos com Cristo, pois não respondeu com agressividade àqueles que o ofenderam, antes disse: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem.” (Lucas 23.34).

 :: Daniel Lopez

Bacharel em Teologia pela Universidade Metodista de São Paulo. Jornalista e doutorando em Linguística na Universidade Federal Fluminense (UFF). É também professor universitário, tradutor e diretor do programa e ministério Desvendando o Original.
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