Antes de tratar o seu filho como um delinqüente é preciso ter uma conversa franca, aberta e amigável com ele.

É disso que ele precisa no momento. Não adianta fingir que nada está acontecendo, ou tomar medidas que possam ser interpretadas como conivência com a droga.

Com calma e paciência, o assunto deve ser discutido de frente. Se o jovem vem de uma família bem estruturada, cujas relações são baseadas em diálogo e pais modelos, pode até chegar a experimentar drogas (eventualmente), porém, não fazem uso dela.

Na maioria das vezes o jovem parte para a primeira experiência por mera curiosidade, achando que pode parar quando quiser, alguns conseguem. Porém, outros acabam aumentando as doses; indo para as drogas mais pesadas e perigosas.

Para a maioria dos especialistas no assunto, a curiosidade pelo novo, pelo diferente, e os tóxicos entram nesta classificação, começa, em geral, a parti dos 10 anos.

O pré-adolescente começa a se auto-afirmar, a buscar referenciais. Essa é uma fase de transição, um momento em que se começa a experimentar novas sensações por meio de coisas ofensivas e inofensivas. Eles se testam na família, na escola e nas drogas. “Nesta fase específica, o jovem está mudando, ou buscando um referencial, principalmente aqueles envolvidos com drogas. Em geral é uma fase em que o jovem se torna arredio e introspectivo”. A procura da droga já é um sinal de insatisfação, mas a dependência se estabelece numa reciprocidade: quando a droga é suficientemente forte para amarrar um jovem, e este fraco o bastante para se deixar envolver, tudo depende da história de vida de cada um.

Um viciado, de forma geral, é alguém que se vê num determinado momento, diante de uma série de conflitos e não tem estrutura para encará-los. E é aí que a droga funciona como válvula de escape: a droga libera tensões, é uma maneira de relaxar e de se aliviar.

E se existe um hábito, ele se cultiva quase sempre em grupo. Quando o jovem acredita que em casa, ninguém o compreende, os pais são caretas, que o diálogo é impossível vai buscar respaldo na “turma”, afinal, são jovens como ele, com os mesmos problemas, expectativas semelhantes, anseios e sonhos. É uma tentativa de buscar segurança, apoio e aceitação, valorizando sua identidade pessoal. E se para esse grupo a “saída” é fazer uso de drogas, muito provavelmente o jovem que estiver passando por uma crise familiar, vai querer ser aceito pela turma e entrará na onda de tóxicos.

Por mais que uma turma influencie um jovem, existem conflitos que o levarão a buscar a aceitação em um grupo que não a família. É na família que entram em cena forças emocionais como: medo, depressão, otimismo, teimosia, autoridade, submissão, protestos, rebeldia, obediência, diálogos, discussões. No caso dos adolescentes, a tudo isso ainda, se acrescenta o choque das gerações.

Não são as tenções que causam o conflito, mas a incapacidade de dimensionar, discutir e resolver essas tensões. E, para alguns jovens, a droga passa a ser vista como uma “saída”, para a solução das tensões. A família é um forte componente que influencia na decisão de o jovem buscar ou não a droga. Há vários tipos de família: há aquela em que o filho será sempre uma criança. Existem famílias que não há regras estabelecidas, enquanto outras não desenvolvem qualquer tipo de responsabilidade no filho. São alguns estilos de vida que não criam no adolescente a consciência de buscar soluções saudáveis para qualquer tipo de problema ou sofrimento.

Famílias marcadas por separações, ausência do pai ou da mãe, desarmonia ou falta de afeto também são alguns dos cenários, propícios para o surgimento de problemas como a droga. Sempre digo que, “o adolescente que vive num clima de insegurança na família mal constituída será uma presa fácil para a droga que vai preencher o vazio afetivo no qual ele cresceu”.

Quando eu atendo um jovem dependente de droga a primeira coisa que faço é estudar a família ou procurar saber detalhes da história familiar. Procuro saber sobre o apoio, compreensão, diálogo. São atitudes importantes na aproximação entre pais e filhos, e, muitas vezes, são esquecidas.

Os pais lembram que os filhos não são mais crianças, mas também não o respeitam como adultos.

Levantar as causas do problema, aceitar falhas, enfrentar medos e insegurança não significa procurar culpados para condená-los. Nenhum pai ou mãe do jovem ou adolescente precisa ser execrado porque errou ou falhou. Quando dissecamos as causas do assunto, ou fazemos uma radiografia da família, estamos procurando meios de ajudar o jovem se encontrar, dialogar com os pais e viver bem em sociedade. É preciso, no entanto, deixar a vergonha e o preconceito de lado, reunir forças e coragem para enfrentar o problema. Aprendemos muitas coisas durante esta luta e garantimos que é doloroso. Mas essa, talvez, seja a ocasião para se fazer uma reavaliação de como tem sido a vida em família, e se propor a mudar o que for preciso: “Se alguém não cuida dos seus, e especialmente dos de sua própria família, negou a fé e é pior que um incrédulo.” (1Tm 5.8.)

:: Por Rosalice Santos Dias – Missão Êxodo
Educadora, formada pela Faculdade de Educação da Bahia