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Liberto para resgatar vidas

Almir Ferreira viveu entre a prisão e a falsa liberdade oferecida pelas drogas, mas hoje é instrumento de libertação de vidas na “Casa Azul”

almirMeu nome é Almir dos Santos, tenho 34 anos, e há 4 anos sou convertido ao Senhor Jesus. Aos 7 iniciei minha vida no crime realizando pequenos furtos, e aos 18 fui preso pela primeira vez. Na cadeia conheci assaltantes de São Paulo e do Rio de Janeiro que me influenciaram a entrar para o crime organizado. Quando fugi da cadeia de Belo Horizonte, recebi do chefe da facção criminosa, a qual entrei, a proposta de viajar para a Colômbia, onde receberia treinamentos de montagem e desmontagem de armamento. Após esse treinamento assumi na organização criminosa de BH a função de eliminar vestígios das armas, de forma a dificultar o trabalho da polícia em identificar se a arma tinha sido utilizada em algum tipo de assalto, roubo ou homicídio. Do ano de 1998 até 2006 a minha vida se resumia à prisão em penitenciárias e fugas.

Em 2006 recebi perdão de pena (o réu não responde mais pelo crime judicialmente, está livre da pena) e pude sair da prisão. Porém, continuei trabalhando para o crime, fazendo a limpeza de armamentos. O problema é que o crime não estava gerando lucros para mim. Além disso, dentro da cadeia eu era “O cara”, respeitado e admirado e do lado de fora era apenas mais um na multidão, sem respeito ou prestígio. em todos os locais que ia me candidatar, era rejeitado, porque tinha ficha criminal. Sentindo-me triste e sem valor procurei preencher esse vazio que sentia no crack. Depois que experimentei a primeira vez, não parei mais.

Nessa busca por ser alguém na sociedade, continuei correndo atrás de um emprego. A única vaga que conseguia era a de faxineiro, entretanto, assim que descobriam que eu era ex- -presidiário me mandavam embora. Fazia alguns trabalhos como pedreiro em algumas obras, mas nada fixo. Essa situação me incomodava bastante e fez com que eu mergulhasse ainda mais no vício. Além do crack, passei a cheirar cocaína e a beber cachaça. Comecei com uma dose por dia de aguardente e depois passei a tomar 2 litros e a fumar 5 a 6 gramas de pedras. Para sustentar meu vicio, fazia alguns serviços para os traficantes da favela onde morava, limpando armas.

Nessa época conheci minha esposa, Elaine Ferreira, que passou grandes lutas por causa do meu vício. Era normal, quase que diariamente, Elaine me buscar de madrugada na “boca” onde ficava fumando crack. Inclusive, houve uma situação em que ela estava de resguardo de nosso segundo filho, Leonardo, e teve que ir me buscar. Todos da minha família se afastaram de mim e constantemente minha mãe aconselhava Elaine a me deixar, mas ela continuou ao meu lado. O meu vício era terrível para minha família. Todas as manhãs, após beber uma xícara de café, bebia 1 litro de cachaça. Além disso, todo o dinheiro que conseguia no trabalho era para as drogas. Meus filhos já passaram necessidades em casa, a ponto de Elaine completar o leite com água filtrada. Diante de tanto sofrimento, minha esposa estava decidida a me deixar, mas antes que isso acontecesse alguém muito especial entrou na minha história.

Uma das minhas atividades rotineiras era ir ao bar, e no caminho me encontrava com um vizinho chamado Gilmar. Ele é crente e me cumprimentava com sorriso e educação. Mesmo quando eu respondia de forma ríspida, Gilmar não mudava a maneira de me tratar. Com o tempo, estabelecemos uma amizade e todos os dias o Gilmar me convidava para ir à igreja. Não conseguia ir ao culto, pois normalmente estava drogado, então o Gilmar marcou um culto na minha casa.

No dia 19 de janeiro de 2010, numa quinta-feira, às 20:30, vários irmãos em Cristo e o Gilmar celebraram um culto no meu lar. Estava embriagado, mas no momento em que fizeram o apelo para aceitar Jesus, me coloquei de joelhos e orei a Deus dizendo: “Senhor, por favor, muda a minha vida, não aguento mais ser do jeito que sou. Ou o Senhor me transforma ou vou tirar a minha vida”. Não sei explicar com palavras o que aconteceu no meu coração, só sei que depois desse culto nunca mais fui o mesmo. Não fiz mais uso de drogas e nunca mais bebi uma gota sequer de cachaça. O que aconteceu foi um milagre. Desde esse dia não tive recaídas e como todo dependente vivo “só por hoje”. Tornei-me um crente fiel a Deus. Como eu não era casado nem no civil e nem no religioso com Elaine, uma das primeiras atitudes que tive como convertido foi acertar essa situação. No próximo mês completaremos 3 anos de casados, temos uma família linda, com três filhos, Letícia, Leonardo e Raísa.

Mas as bênçãos não pararam por aí. Em 2012 conheci o pastor Wellington Vieira, responsável pelo CREDEQ. Conhecê-lo foi uma bênção, pois não conseguia emprego em local algum e por meio da vida dele consegui meu emprego no CREDEQ para fazer o que mais desejava: tirar pessoas do mundo das drogas. Graças a Deus consegui tirar 10 amigos das drogas e interná-los em comunidades terapêuticas. Após esse fato, as pessoas que me conheciam como viciado e ainda duvidavam da minha mudança, passaram a me respeitar e acreditarem que agora sou uma nova criatura em Cristo. Porém, não eram todas as pessoas que aprovavam o que eu fazia. Muitos traficantes da comunidade em que eu morava não gostavam de mim e me olhavam com desconfiança, principalmente porque ajudava pessoas a saírem do tráfico. Para piorar a situação, a violência na comunidade aumentava, o que me preocupava, já que desejava oferecer à minha esposa e aos meus filhos um lar digno e livre de ameaças. Comecei a orar a Deus clamando por uma nova casa em um novo bairro e a resposta veio por meio do pastor Wellington. Ele me convidou para trabalhar num novo projeto chamado “Casa Azul”, no qual precisaria permanecer no local 24 horas por dia para receber homens dependentes químicos que tinham o desejo de serem internados. Aceitei de imediato a proposta e mudei com toda a minha família para a “Casa Azul”. Chegando à nova moradia, realizei alguns reparos e reformas e, em outubro de 2013, a casa pôde entrar em funcionamento.

Hoje, tenho o privilégio de servir a Deus auxiliando pessoas a saírem das drogas e presenciar vários milagres, homens totalmente transformados e restaurados pelo poder de Deus. Sou abençoado por ter minha família ao meu lado e ver meus filhos crescendo com saúde, estudando e desfrutando de uma vida normal como qualquer criança. Minha mãe, irmãos e outros parentes se reconciliaram comigo e alguns já aceitaram Jesus por meio do meu testemunho. Meus sonhos são muitos, mas tenho colocado em oração: a conquista da casa própria, minha carteira de habilitação e fazer um curso de Teologia. E claro, quero continuar trabalhando com dependentes químicos. Sou um homem realizado, pois tenho vida abundante, graças a Jesus.

Fotos: Atilano Muradas

:: Almir Santos e Kátia Brito