Arminda (mãe), Hélio, Héle (pai) Deise, Márcio, Vera e Ângela

Márcio Roberto Vieira Valadão nasceu em 1948, num lar evangélico presbiteriano e seu pai era um homem muito piedoso que realizava todos os dias um culto em família, o chamado culto doméstico. “Meu pai lia a revista da Escola Dominical. Um dia ele orava e no outro dia a mãe orava”, lembra o pastor Márcio.

A família era grande – o casal e sete filhos – e Márcio começou a trabalhar bem cedo – com 7 anos. “Não tenho lembrança dos meus pais me comprarem roupas depois desse tempo, afinal, eu já trabalhava e comprava minhas próprias coisas. Não éramos miseráveis, mas também não éramos ricos e nem pobres. O papai trabalhava em casa como sapateiro até quando nos mudamos para o bairro Bonfim e pudemos abrir uma porta para a rua. Meu pai tinha a sua freguesia e também algumas paixões: falar de política, futebol e religião. Todas as pessoas que vinham até a sapataria eram evangelizadas, ainda que o evangelismo daquele tempo fosse bem diferente dos dias de hoje”, explica. Na década de 50 o evangelismo era mais anticatólico, ou seja, se falava mais contra os católicos, a Infalibilidade Papal, a Idolatria, do que propriamente sobre o Evangelho.

Quando Márcio tinha 15 anos, em 1964, um terrível acidente desestabilizou toda a família: a morte de seu pai durante uma caçada. Um tiro acidental na coxa o levou a passar uma semana hospitalizado. “Eu fiquei com ele no hospital. Infelizmente, os médicos não lhe deram uma vacina anti-tetânica, então ele acabou morrendo, não do tiro, mas de tétano. Meu pai era um homem saudável e integrado à igreja”, relembra.

Hélio, Márcio, Héle (pai), Ângela, Deise e Vera

Mas a vida precisava continuar. Como já aprendera a negociar, comprar, vender, Márcio, então, assumiu os negócios do pai. Em pouco tempo, a loja cresceu e foi preciso alugar outro espaço e contratar mais funcionários. Márcio era agora um empresário bem-sucedido no centro da cidade de Belo Horizonte. Uma curiosidade dessa época é que ele ia a São Paulo fazer compras para a loja, mas não tinha Carteira de Identidade porque era menor de idade. Podia ser empresário, mas não podia ter identidade. Sua sorte é que tinha porte de adulto, então ninguém lhe pedia identidade. Contudo, à medida que os negócios cresciam, o jovem Márcio se distanciava da Igreja. “Por mais que eu estivesse fora da Igreja, sempre me batia saudade, afinal, eu fora criado nela”, confessa o pastor.

 

A CONVERSÃO

Algum tempo depois que seu pai faleceu, Márcio ficou sabendo de uma igreja evangélica onde aparecia fogo no altar e as pessoas andavam nas paredes igual formiga – às vezes, ele diz lagartixa. “Fui nessa igreja como curioso e, claro, não vi ninguém subir nas paredes e nem fogo aparecer”, conta rindo. Por quase um ano Márcio frequentou essa igreja cujo pastor era José Rego do Nascimento, o precursor da renovação espiritual no Brasil. Mas mesmo assim ele não se encontrou espiritualmente. “Eu ouvia todas as mensagens, mas não tinha a experiência do novo nascimento. Meu foco naqueles dias estava em trabalhar e ser rico”, declara.

A história de Márcio, no entanto, começou a tomar um novo rumo quando um jovem vendedor chamado José Carlos Pezzotti, que era da igreja que frequentava, lhe pediu um espaço na loja para expor e vender livros. Naturalmente eles passaram a conversar e andar juntos com frequência. Certo dia, depois de longa conversa, Pezzotti – que hoje é pastor e reside em Belo Horizonte – questionou Márcio se ele tinha certeza da sua salvação e ele teve de admitir que necessitava ter um encontro real com Jesus. Então, em 19 de maio de 1966, durante uma vigília, Márcio aceitou Jesus como seu Senhor e Salvador, foi batizado com o Espírito Santo e chamado para o ministério. Um novo capítulo de sua vida começaria a ser escrito.

O seminário ou o Exército?

O ano de 1966 foi especial e decisivo para a vida do recém-convertido Márcio. Ao mesmo tempo em que Deus havia lhe falado através de uma profecia que no ano seguinte estaria no seminário, Márcio foi selecionado para prestar o serviço militar obrigatório. “Tínhamos aí um problema. Como eu iria para o seminário se eu tinha que servir o Exército?”, lembra. Mas Deus tem suas maneiras de conduzir os fatos.

No dia da sua apresentação no 12º Batalhão de Infantaria (12 BI), depois dos exames médicos, Márcio entrou numa fila para receber a designação de onde iria servir. Quando chegou a sua vez, o oficial leu no alto da ficha a expressão “Excesso de Contingente”. Estava liberado. “Isso pra mim foi um sinal de qual caminho eu deveria seguir. Mas não seria fácil, afinal, eu possuía uma loja num dos lugares mais nobres de Belo Horizonte, no Praça Sete Shopping Center, o primeiro a ter escala rolante em Belo Horizonte. Todavia, de repente, milagrosamente, perdi toda aquela ambição pelo dinheiro. Desfiz de tudo, fiz acerto com cada funcionário dando máquinas, materiais, e vendendo o que era possível. Houve um momento em que olhei e não havia mais nada; nem loja e nem dívidas. Minha vida estava zerada. Então, fui para o seminário, em 1967, quase um ano depois de convertido”, testemunha.

Diferente dos dias de hoje em que a maioria dos seminários funciona em prédios próprios, o seminário onde estudou o pastor Márcio teve sede em igrejas nos bairros Carlos Prates, depois Sagrada Família, Santa Efigênia, e Venda Nova. “Eu tomava o ônibus no Parque Municipal. Lembro-me que um dia encontrei um moço de terno indo para o seminário e perguntei a ele se eu também tinha que ir de terno”, conta rindo.