O desafio continua. O texto a seguir foi publicado originalmente em inglês na revista Índia Today (Índia hoje), edição de 13 de outubro de 2003. Foi traduzido em português e resumido.

Meninas à venda

A Índia tem se tornado um dos maiores mercados de meninas menores de idade. É um imenso e inescrupuloso mercado, com suas próprias regras e preços. Alguns cafetões trabalham com comissões mensais regulares, com um adicional por cada menina vendida.

J., de 13 anos foi resgatada da casa de Hasan, um traficante do vilarejo de Nuh, na região de Haryana. Hasan, de 35 anos, havia trazido J. de um vilarejo em West Bengal depois de pagar três mil rúpias indianas (o que equivale a aproximadamente R$ 184,00) para a sua mãe. Há uma grande procura por meninas menores como ela. Uma comparação de várias estimativas revela que o tráfico de meninas indianas dentro e fora da Índia aumentou 45% na última década.

Rejeitadas por pais pobres, elas são desvalorizadas. Analfabetas, privadas de cuidados e muito inocentes para resistir a qualquer tipo de força, elas estão sujeitas a ser enganadas e sequestradas, como N., de 15 anos, do vilarejo de Hori, em Jharkand, espancada e grávida. Ela foi vendida por duas mil rúpias em Haryana. Temos ainda os relatos de M. G., do Nepal, cujos compradores na Arábia Saudita vazaram seus olhos enquanto ela trabalhava como escrava doméstica por 15 horas ao dia. A., de oito anos, tem os cabelos queimados de sol e mãos deformadas, e foi resgatada de um circo. “As meninas são forçadas a consumir drogas e, dessa forma, manipuladas a seguir ordens”, diz Tapati Bhowmick, da ONG Sanlaap, em Calcutá.

O mito de que as virgens podem curar doenças venéreas ou de que pré-adolescentes não carregam o vírus de HIV tem aumentado a venda nos mercados do sexo. Ao contrário, novos estudos revelam que a doença tem passado de homens infectados para essas meninas. Muitos são portadores do vírus HIV ou encontram-se num estágio avançado da AIDS. A comunidade Bedia, de Uttar Pradesh, que tradicionalmente vende suas filhas aos bordéis, agora está dando-as a clientes ricos no exterior. Hoje em dia quase toda família em Jamtala vende suas filhas.

Esta é a Índia moderna, onde centenas de tragédias semelhantes acontecem todos os dias. Menores são sequestradas, seduzidas, espancadas, estupradas e abusadas, vendidas e revendidas até que acabam se rendendo à escravidão. Tráfico é apenas uma descrição constitucional para o comércio de meninas escravas, atualmente uma indústria de um bilhão de dólares no sul da Ásia. Cerca de 89% do total de meninas traficadas são vendidas dentro do país. Alguns “comerciantes” fingem ser benfeitores de meninas que são fisgadas pela promessa de casamento e uma vida confortável na cidade. A venda de meninas no comércio do sexo é o aspecto mais documentado do tráfico, mas ainda não pode ser usado como sinônimo para a prostituição. Isso envolve outras formas de coerção na venda: trabalho doméstico, mão-de-obra na agricultura e na indústria, atividades nos circos, comércio de órgãos, casamentos falsos, mendicância e adoções ilegais. O valor colocado nas filhas é tão baixo e a dor da fome é tão grande que praticamente qualquer pessoa pode entrar em muitos vilarejos, escolher uma família pobre e comprar uma menina por poucas mil rúpias. Como um morador de uma vila disse: “Nós vendemos as poucas jóias que tínhamos, a fazenda e o gado. Agora a única coisa que temos para vender são as nossas filhas”.

Na Índia urbana, uma história ainda maior tem sido escrita. Mumbai, Delhi e Calcutá funcionam como o centro dos negócios. Mumbai, o ponto de importação e exportação, é indiscutivelmente a capital deste crime. Segundo Dayamani Barla, uma ativista que resgatou 21 meninas fazendo se passar por agente, revela que 20.000 meninas de tribos entram na lista de agências não credenciadas como ajudantes domésticas em Delhi. Ela diz: “A polícia e os políticos locais tem conexão com essas gangues. Os detentores da lei são ignorantes e apáticos, quando não fazem parte do crime. Sem mencionar que alguns policiais também violam os direitos humanos”.

Reabilitação é também um outro “jogo”. Depois do resgate, os policiais não sabem onde colocar as meninas. Elas são levadas aos “Nari Niketans” (locais para reabilitação), alguns dos quais são piores do que prisões. Ali, em nome do aconselhamento, elas são encarceradas. Até que o aconselhamento seja algo além do espancamento, o bem estar esteja além de aulas de costura e a reintegração seja diferente da continuidade do tráfico, uma reabilitação efetiva será apenas um sonho.

A menos que todos, incluindo a polícia, os políticos, o judiciário, os ativistas e as pessoas envolvidas de alguma forma com o tráfico de seres humanos juntem as mãos, meninas continuarão a ser vendidas na Índia do século XXI. Nós, da equipe RACE – Projeto Índia, como “sal” e “luz”, queremos fazer diferença nesta sociedade com valores tão deturpados. Assim como o Mestre nos ensinou, queremos ir, fazer discípulos e ver o cumprimento da Grande Comissão para a Glória de Deus Pai(At. 1.8). Contamos com o seu apoio na intercessão. “A oração de um justo pode muito em seus efeitos.” (Tg. 5.16.)

Projeto Índia
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Fonte: Diantedotrono.com