Quando lemos Gênesis 24, nossa atenção se concentra nas pessoas de Isaque e Rebeca, e em sua união matrimonial. Existe, porém, naquele relato, um personagem coadjuvante que pode nos ensinar muitas lições: o servo de Abraão.
Ele era o escravo mais antigo naquela família, um trabalhador exemplar que chegou a ser mordomo, recebendo a incumbência de administrar todo o patrimônio familiar (Gn 24.2). No citado episódio, Abraão lhe confiou uma missão da maior importância: buscar uma esposa para Isaque (Gn 24.3). O servo já havia trabalhado muito, durante tantos anos, mas precisava continuar. Precisava trabalhar um pouco mais.
Ele foi enviado como representante do patriarca, seu porta-voz, para executar a vontade do seu senhor.
O servo partiu para a longa viagem levando consigo outros escravos, e camelos, e muitas jóias (Gn 24.10, 22, 32, 53). Embora estivesse liderando a comitiva, ele não poderia pensar que aqueles escravos lhe pertenciam. Eram apenas seus conservos. Todos aqueles bens, verdadeira riqueza, embora estivessem em seu poder, também não eram de sua propriedade. Afinal, nem sua vida lhe pertencia.
A viagem seria excelente oportunidade para a fuga, mas o servo não fugiu. Ele poderia desviar-se de sua rota para um passeio ou para tratar de seus interesses particulares, mas isso não aconteceu. Em todo o tempo, foi fiel ao seu senhor.
O escravo que foge está em busca de liberdade, mas, longe do seu senhor, ele não seria ninguém. Na casa de Abraão, embora nada pertencesse ao servo, todas as suas necessidades eram supridas. Seu comportamento nos permite deduzir que o patriarca o tratava bem.
O escravo tinha tão pouca importância social, que seu nome nem foi citado, embora seja comum entre os estudiosos bíblicos a dedução de que se trata de Eliezer (Gn 15.2). Conquanto tenha sido bastante atuante, sua presença era discreta, quase passando despercebida. Ele não chamava a atenção para si, mas para o seu senhor e os seus propósitos. Até quando comia e bebia, ou deixava de fazê-lo, tinha em mente a missão recebida (Gn 24.14,33,54).
Chegando ao seu destino, o servo foi muito bem recebido. Chegou a ser chamado de “senhor” e tratado como tal (Gn 24.18). De fato, ele foi honrado porque se beneficiava da honra de Abraão.
Apesar de sua posição social insignificante, aquele servo era uma pessoa que cumpria sua palavra. Seu caráter era exemplar. Ele foi e voltou, conforme havia combinado. Demonstrou obediência e zelo na execução do seu trabalho. Não tentou facilitar as coisas nem enganar ao seu senhor. Ele poderia trazer uma mulher cananéia, dizendo ser caldéia, mas não fez isso (Gn 24.3). O texto nos mostra que ele estava muito interessado no bom resultado daquela viagem, embora estivesse trabalhando para a constituição da família alheia.
Ele precisava trazer uma mulher excelente, mesmo sabendo que ela não seria dele. Não poderia cobiçá-la nem tocá-la.
Nós também somos servos. Estamos dispostos e disponíveis para o trabalho? Somos fiéis? Cumprimos nossa palavra? Obedecemos à palavra do Senhor? Fazemos o melhor?
Não tente fugir do Senhor, como Caim (Gn 4.14-16). Aqueles que fogem em busca de liberdade, tornam-se escravos do inimigo.
Muitos crentes querem ser grandes servos de Deus. Isto é um paradoxo, pois todo servo é pequeno. Grande é o Senhor (Salmo 145.3). Muitos querem estar em evidência, tendo o seu próprio nome em destaque, buscando para si o reconhecimento, a glória, a honra e todo o fruto do trabalho. Tudo fazem tendo em vista a vantagem e o ganho pessoal.
Precisamos colocar o nome de Jesus acima do nosso. Que ele cresça, e nós diminuamos (João 3.30). Somos seus representantes. Nossa missão é de grande importância, mas cada um de nós deve ter pensamento humilde acerca de si mesmo. Até os líderes são servos.
Não podemos ser possessivos, idólatras, avarentos, mesquinhos ou negligentes em relação aos bens materiais que nos foram confiados. Tudo o que está em nossas mãos pertence ao Senhor. Nós mesmos lhe pertencemos. Somos apenas mordomos, despenseiros de Deus (1Co 4.1-2).
Por mais que nos tenha sido entregue, não faz sentido uma postura de orgulho ou presunção da nossa parte. Tudo pertence a Deus. Continuamos sendo servos. Por mais gloriosa que seja a nossa missão, não devemos permitir que o nosso coração se encha de soberba. Não podemos nos engrandecer diante dos nossos irmãos, nossos conservos, companheiros de jornada, como se fôssemos melhores do que o menor deles (Mt 18.28; Mt 24.48-49).
Trabalhando na obra do Senhor, precisamos agir com temor e tremor, sabendo que a igreja não nos pertence. Ela é a amada noiva do Cordeiro. Aqueles que a conduzem devem fazê-lo com grande responsabilidade, pois haverão de apresentá-la ao Senhor para as bodas.
O servo será recompensado pelo seu bom trabalho. Os senhores humanos nem sempre o fazem, mas o Senhor celestial não deixará de dar o galardão aos seus trabalhadores.
“Quem é, pois, o servo fiel e prudente, que o senhor pôs sobre os seus serviçais, para a tempo dar-lhes o sustento? Bem-aventurado aquele servo a quem o seu senhor, quando vier, achar fazendo assim.” (Mt 24.45-46).
Depois de cumprida a missão, Eliezer retornou à casa de Abraão. Nós também, quando concluirmos o que de nós se espera neste mundo, iremos à casa do Pai celestial, que nos dirá:
“Muito bem, servo bom e fiel; sobre o pouco foste fiel, sobre muito te colocarei; entra no gozo do teu senhor.” (Mt 25.21).
:: Por Anísio Renato de Andrade
Bacharel em Teologia
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