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Vida Cristã

Cristão e Política: Barzilai, Absalão e o serviço público

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Foto: pexels.com

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O rei Davi enfrentava uma das piores crises de seu reinado. Absalão, seu próprio filho, havia conspirado contra ele, colocando em prática um plano malicioso de usurpar o trono. Em 2 Samuel 15, a Bíblia apresenta o modo pelo qual Absalão trabalhou para tentar derrubar Davi:

“Algum tempo depois, Absalão adquiriu uma carruagem, cavalos e uma escolta de cinquenta homens. Ele se levantava cedo e ficava junto ao caminho que levava à porta da cidade. Sempre que alguém trazia uma causa para ser decidida pelo rei, Absalão o chamava e perguntava de que cidade vinha. A pessoa respondia que era de uma das tribos de Israel, e Absalão dizia: A sua causa é válida e legítima, mas não há nenhum representante do rei para ouvi-lo. E Absalão acrescentava: Quem me dera ser designado juiz desta terra! Todos os que tivessem uma causa ou uma questão legal viriam a mim, e eu lhe faria justiça. E sempre que alguém se aproximava dele para prostrar-se em sinal de respeito, Absalão estendia a mão, abraçava-o e beijava-o. Absalão agia assim com todos os israelitas que vinham pedir que o rei lhes fizesse justiça. Assim ele foi conquistando a lealdade dos homens de Israel” (2 Samuel 15.1-6).

Absalão é o estereótipo de oportunistas que utilizam a máquina pública para se promoverem. A Bíblia fala do aparato de carruagem, cavalos e cinquenta homens para servir, não ao reino de Israel, mas aos caprichos de alguém do reino. O filho do rei utilizou de sua posição para “roubar” o coração do povo, dizendo-lhes que não eram representados adequadamente, e que, se ele mesmo, Absalão, pudesse representá-los, certamente haveria justiça. O filho do rei entendeu que é necessário apoio popular para o exercício do governo e trabalhou quatro anos para que atingisse seu objetivo. Quantas pessoas usam de suas posições na esfera governamental para promoverem ações em benefício próprio? Esse foi o grande objetivo de Absalão.

Ao final de quatro anos, Absalão disse ao rei: “Deixa-me ir a Hebrom para cumprir um voto que fiz ao Senhor. Quando o teu servo estava em Gesur, na Síria, fez este voto: Se o Senhor me permitir voltar a Jerusalém, prestarei culto a Ele em Hebrom” (2 Samuel 15.7-8).

“Vá em paz!”, disse o rei. E ele foi para Hebrom (2 Samuel 15.9).

Absalão enviou mensageiros secretamente a todas as tribos de Israel, dizendo: “Assim que vocês ouvirem o som das trombetas, digam: Absalão é rei em Hebrom”. Absalão levou duzentos homens de Jerusalém. Eles tinham sido convidados e nada sabiam nem suspeitavam do que estava acontecendo. Depois de oferecer sacrifícios, Absalão mandou chamar Aitofel, da cidade de Gilo, conselheiro de Davi. A conspiração ganhou força, e cresceu o número dos que seguiam Absalão (2 Samuel 15.10-12).

Davi estava sendo derrubado do trono pelo próprio filho e rapidamente decide fugir. Então, um mensageiro chegou e disse a Davi: “Os israelitas estão com Absalão! Em vista disso, Davi disse aos conselheiros que estavam com ele em Jerusalém: Vamos fugir; caso contrário, não escaparemos de Absalão. Se não partirmos imediatamente, ele nos alcançará, causará a nossa ruína e matará o povo à espada” (2 Samuel 15.13-14).

Imagine a decepção, os medos que tomaram Davi. Foram tempos sombrios na vida do rei. Durante esse período, Davi é assistido por um homem chamado Barzilai:

“Quando Davi chegou a Maanaim, Sobi, filho de Naás, de Rabá dos amonitas, Maquir, filho de Amiel, de Lo-Debar, e o gileadita Barzilai, de Rogelim, trouxeram a Davi e ao seu exército camas, bacias e utensílios de cerâmica e também trigo, cevada, farinha, grãos torrados, feijão e lentilha, mel e coalhada, ovelhas e queijo de leite de vaca; pois sabiam que o exército estava cansado, com fome e com sede no deserto” (2 Samuel 17.27-29).

Barzilai representa um legítimo servidor público. O reino estava ameaçado, e Barzilai se arrisca para socorrer a legitimidade do trono. Em um momento de crise, Barzilai não se aliou ao “novo” rei buscando prestígio, muito pelo contrário, ele escolheu amparar o verdadeiro rei para o restabelecimento da justiça. Quantas pessoas que trabalham na esfera pública estão dispostas a “remarem contra a maré”, contra o sistema corrompido, mesmo que arriscando a própria reputação em nome da restauração da justiça?

A história segue, e, em um confronto de exércitos, Absalão morre, e o reino de Davi é restaurado. Era chegada a hora de Davi retornar para Jerusalém:

“Barzilai, de Gileade, também saiu de Rogelim, acompanhando o rei até o Jordão, para despedir-se dele. Barzilai era bastante idoso; tinha oitenta anos. Foi ele que sustentou o rei durante a sua permanência em Maanaim, pois era muito rico. O rei disse a Barzilai: Venha comigo para Jerusalém, e eu cuidarei de você” (2 Samuel 19:31-33)

Barzilai, porém, respondeu: “Quantos anos de vida ainda me restam, para que eu vá com o rei e viva com ele em Jerusalém? Já fiz oitenta anos. Como eu poderia distinguir entre o que é bom e o que é mau? Teu servo mal pode sentir o gosto daquilo que come e bebe. Nem consigo apreciar a voz de homens e mulheres cantando! Eu seria mais um peso para o rei, meu senhor. Teu servo acompanhará o rei um pouco mais, atravessando o Jordão, mas não há motivo para uma recompensa dessas. Permite que o teu servo volte! E que eu possa morrer na minha própria cidade, perto do túmulo de meu pai e de minha mãe. Mas aqui está o meu servo Quimã. Que ele vá com o meu senhor e rei. Faze por ele o que achares melhor” (2 Samuel 19.34-37)

A guerra já havia acabado, e o rei havia restabelecido o trono. Este era o momento perfeito para Barzilai receber recompensas. Davi o convida para viver na corte. A corte era o lugar desejado por muitos, lugar de prestígio, de riqueza e paz. Barzilai seria homenageado como aquele que socorreu o rei, todavia, a resposta surpreende. O homem que serviu o rei em um dos momentos mais difíceis de sua história não deseja viver na corte. Ele entende que, para desfrutar do prestígio de viver próximo ao rei, exige capacidade de auxiliá-lo, de aconselhá-lo e não ser peso para as finanças do reino. Barzilai reconheceu que já não podia mais discernir o bem do mal; em outras palavras, ele não poderia servir ao rei neste novo cenário político.

Barzilai representa o ideal de todo servidor público. Trabalha para o reino e não para si mesmo; resiste às tentações do poder e reconhece quais são suas limitações. Ao mesmo tempo, reconhece potencial em outros para que sirvam ao reino de forma excelente. Assim Barzilai fez quando recomendou seu servo Quimã.

Precisamos desesperadamente de mais Brazilais e menos Absalões no serviço público municipal, estadual e federal, nos poderes executivo, legislativo e judiciário.

Que venha este novo tempo no Brasil!

:: Carlos Said Pires [Grupo de Ação Política – GAP]

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