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Vida Cristã

Não adianta ser servo sem ser filho

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Foto: unsplash.com

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Ele foi ungido por Deus e teve a oportunidade de se firmar como líder do povo de Israel, mas falhou gravemente. A história de Saul nos permite observar que ele era muito prático, mas falhava na essência. Era do tipo que topava qualquer ajuda ou qualquer solução, de qualquer modo, ainda que a origem fosse duvidosa ou errada, como se os fins justificassem os meios. Vendo-se ameaçado pelos filisteus, Saul realizou o sacrifício, embora esse ato só pudesse ser executado por Samuel. Havia um problema, e Saul imaginava que a solução era o sacrifício. Ele não orou nem buscou a face do Senhor, mas colocou sua fé no ritual. Além disso, usurpou o direito ministerial do profeta (1Sm 13.8-14). Por essa causa, foi-lhe anunciado que o reino lhe seria tirado.

Em outro episódio de guerra, Saul decretou um jejum. Os soldados, que precisavam de energia para o combate, foram proibidos de comer durante todo o dia. Novamente, o rei não orou, mas apenas jejuou. Sua atitude insensata trouxe grande confusão, que quase resultou na morte de seu filho Jônatas (1Sm 14.24-35). Quando Deus mandou que Saul destruísse os amalequitas e todos os seus animais, o rei resolveu poupar ovelhas e bois, sob o pretexto de trazer uma oferta ao Senhor. Então, Samuel o repreendeu severamente, dizendo que a obediência é melhor do que o sacrifício (1Sm 15.21-22). Quando Golias ameaçava o povo de Israel, Saul não orou ao Senhor, mas ficou na dependência do seu exército. Quando Davi se ofereceu para combater o gigante, o rei lhe ofereceu armadura e espada, mas não buscou a face do Senhor (1Sm 16.38-39). Em momento algum Saul demonstrou fé ou coragem diante da ameaça. Finalmente, quando resolveu clamar ao Senhor e não obteve resposta, Saul buscou a ajuda de uma feiticeira (1Sm 28). Logo depois, condenado por Deus, o rei foi morto no campo de batalha (1Sm 31).

Nós também enfrentamos vários tipos de problemas na vida. Não podemos aceitar qualquer solução. O solitário não deve aceitar qualquer companhia para satisfazer suas carências, assim como o faminto não deve aceitar um alimento podre ou envenenado. O desempregado não deve aceitar qualquer fonte de renda. O endividado não deve aceitar dinheiro sujo. É evidente que situações extremas são complicadas, mas, em muitos casos, nem existe urgência, mas uma ansiedade injustificável que faz as pessoas abraçarem qualquer proposta. Esaú chegou faminto do campo e fez o pior negócio da sua vida para matar a fome. O pragmatismo, como princípio orientador da vida, pode nos levar a fazer coisas terríveis. Devemos, entretanto, colocar os valores cristãos acima das nossas necessidades. Nem toda solução é boa. Precisamos orar e esperar a ajuda de Deus. Podemos agir, sim, dentro do que é certo e adequado.

A história de Saul também chama atenção para a supervalorização de objetos e rituais em detrimento da espiritualidade. A espada era objeto raro em Israel naqueles dias (1Sm 13.19-22), mas Saul e Jônatas possuíam as suas. O rei estava mais confiante nas armas do que em Deus. Da mesma forma, ele confiava muito nas ofertas e sacrifícios, embora fosse infiel, descrente e desobediente. Nada vale uma fé depositada em objetos, liturgias ou atos proféticos, quando o indivíduo vive em rebeldia contra Deus. Por outro lado, mesmo com toda fé e sinceridade, não devemos sair fazendo qualquer coisa inútil, desnecessária e sem a ordem do Senhor. O pragmatismo pode nos levar a fazer muitas coisas. Podemos ser ativos, eficientes, e isso pode, talvez, ser muito bom sob vários aspectos. Porém a essência do cristianismo é espiritual. Não adianta fazer sem ser. Nada vale a oferta sem generosidade, o agradecimento sem gratidão, as boas obras sem amor, rituais sem fé e cultos sem devoção.

No dia do juízo, muitos dirão: “Senhor, Senhor, não profetizamos nós em Teu nome? E em Teu nome não expulsamos demônios? E em Teu nome não fizemos muitas maravilhas? Então lhes direi abertamente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade” (Mateus 7.22,23). Existem muitas coisas que precisamos e devemos fazer para Deus, mas não adianta ser servo sem ser filho.

:: Pr. Anísio Renato de Andrade

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