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Vida Cristã

Vulnerabilidades

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Foto: Usplash

Foto: Usplash

“Não havia mantimento em toda a região, pois a fome era rigorosa; tanto o Egito como Canaã desfaleciam por causa da fome. José recolheu toda a prata que circulava no Egito e em Canaã, dada como pagamento do trigo que o povo comprava, e levou-a ao palácio do faraó. Quando toda a prata do Egito e de Canaã se esgotou, todos os egípcios foram suplicar a José: “Dá-nos comida! Não nos deixes morrer só porque a nossa prata acabou”. E José lhes disse: “Tragam então os seus rebanhos, e em troca lhes darei trigo, uma vez que a prata de vocês acabou”. E trouxeram a José os rebanhos, e ele deu-lhes trigo em troca de cavalos, ovelhas, bois e jumentos. Durante aquele ano inteiro ele os sustentou em troca de todos os seus rebanhos. O ano passou, e no ano seguinte voltaram a José, dizendo: “Não temos como esconder de ti, meu senhor, que uma vez que a nossa prata acabou e os nossos rebanhos lhe pertencem, nada mais nos resta para oferecer, a não ser os nossos próprios corpos e as nossas terras. Não deixes que morramos e que as nossas terras pereçam diante dos teus olhos! Compra-nos, e compra as nossas terras, em troca de trigo, e nós, com as nossas terras, seremos escravos do faraó. Dá-nos sementes para que sobrevivamos e não morramos de fome, a fim de que a terra não fique desolada”. Assim, José comprou todas as terras do Egito para o faraó. Todos os egípcios tiveram que vender os seus campos, pois a fome os obrigou a isso. A terra tornou-se propriedade do faraó” (Gênesis 47.13-20).

O termo vulnerabilidade se refere às dificuldades, momentâneas ou não, enfrentadas por um indivíduo, uma família ou uma população a partir de determinada situação desfavorável. A vulnerabilidade existe porque entre duas partes uma é forte e a outra fraca, remetendo-nos à ideia de fragilidade, fraqueza, destrutibilidade, indefensabilidade, insegurança e instabilidade.

O texto acima mostra que após sete anos de bonança, o Egito passou a amargar sete anos de seca e fome como havia previsto José. Este contexto de dificuldade colocou todo o povo do Egito e de Canaã à mercê de Faraó e sua política de provisão de alimentos.

A previsibilidade necessária

Vale salientar que José havia preparado o Egito para esse momento. Uma sofisticada política de abastecimento preventivo havia sido colocada em prática nos sete anos anteriores. O planejamento de provisões com foco no futuro vinha sendo executado num período em que não havia nenhum sinal de necessidade futura, já que o Egito era uma potência com seu solo fértil e seu povo forte. Tudo ocorrendo na mais perfeita ordem, até que o cenário inesperadamente mudou.

Este relato bíblico remete-me ao início de minha vida profissional. Cheia de energia, ideias e boa vontade, eu estava pronta para vencer na vida e “ganhar” o mercado. Trabalhar simultaneamente em quatro instituições de ensino superior, viajar para ministrar cursos, planejar aulas e corrigir provas durante a madrugada faziam sentido diante de meu vigor excessivo. Hiperfoco no trabalho e em minhas atividades na igreja, pouca atenção com a saúde e a vida social.

Gastos excessivos, pouco planejamento e a falsa impressão de que a bonança seria uma constante em minha vida (e não apenas uma fase!) impediram-me de provisionar recursos suficientes para a velhice. Sendo assim, depois de vários percalços, hoje continuo tendo que trabalhar muito para repor aquilo que não acumulei no início da carreira.

Neste momento, maturidade e experiência me fazem uma profissional diferenciada no mercado, mas com pouco interesse em gastar minhas noites de sono com tarefas laborais. Meu exemplo me mostra que a vida busca o equilíbrio entre o trabalhar e o conquistar e o segredo está no planejar.

O perigo da vulnerabilidade

Estamos no final de novembro, época das “promoções” comerciais mais esperadas do ano, período de satisfazer os impulsos consumistas que existem em cada um de nós. O comércio prepara o ambiente promocional apresentando o tripé VEJA-DESEJE-COMPRE.

O clima é propicio porque ampara-se sobre as vulnerabilidades das pessoas. Com base nisso, o direito do consumidor, ao analisar relações comerciais, reconhece a vulnerabilidade do consumidor, pois entende que é o fornecedor quem detém conhecimento e poderes no processo de comercialização quando comparado ao consumidor.

Deixando de lado termos técnicos, jurídicos e econômicos e voltando ao texto bíblico percebemos que quanto mais vulneráveis estamos, mais abrimos mão de coisas importantes. O povo abriu mão da prata, dos rebanhos, das terras e da liberdade por causa da fome, pois essa era sua vulnerabilidade.

Nesses tempos de escassez de empatia, de amor ao próximo, de caridade, de atenção ao aflito e de comunhão com Deus; do quê você tem aberto mão em nome de suas vulnerabilidades?

:: Kilvia Mesquita

Dra em Economia pela UFMG, professora universitária, palestrante e autora do livro “Os 40 ladrões que existem em você: como identificar e superar a autossabotagem financeira”. Siga a Kilvia no instagram e obtenha dicas de finanças Pessoais.

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